Exemplos que denigrem o Jornalismo Esportivo

A qualidade de quem é confiável costuma ser a definição mais crível da palavra credibilidade. Ainda que possa haver outros entendimentos, boa parte deles segue esta linha, o que sinaliza grande similaridade entre eles. Substantivo muito presente no dia a dia, algo que costuma ser festejado em qualquer relação humana, possui primos igualmente valorosos. Idoneidade, verdade, honestidade e respeito são alguns deles. Entrar nesta família não demanda consanguinidade. Aliás, pouco tem a ver com isso, mas sim com valores que precisam estar enraizados no caráter daqueles que a almejam. A história vivida por cada pessoa faz com que muitos deles não sejam herdados. Isto justifica o fato, por exemplo, quanto a possibilidade de pais muito honestos gerarem filhos nem tanto. O oposto também. Fato é que não há qualquer garantia de sua continuidade dentro de uma mesma árvore.
Possui outras características muito interessantes, uma delas diz respeito ao fato dela não ser exclusiva de certos ambientes e grupos. Isto é, em qualquer atividade desenvolvida, quer seja pessoal e/ou profissional, sua presença é querida. Enfim, a credibilidade é uma jóia. Mas há uma interessante particularidade. Uma vez perdida, não cabe sequer procurá-la, ela não é adepta aos reencontros. Talvez aí se apresente sua maior preciosidade, ela é única e pontual. A mera possibilidade de sua ausência já é capaz de colocar muitas coisas em risco. Sua perda, apenas o primeiro passo em direção a um caminho definitivo e sem volta. Neste sentido, há certa crueldade, um grande ponto de atenção. Às vezes, no entanto, apenas questão dos valores abraçados.
No campo jurídico, há certas instrumentos utilizados para a garantia de sua presença. O Código de Processo Civil brasileiro, CPC, lei que regulamenta o processo judicial civil, é um deles. Ao tomá-lo como referência, um juiz pode se declarar impedido de julgar determinado processo por critérios que possam comprometer sua parcialidade. Um deles quando ele é parte ou parente de uma das partes do processo. Outro em caso de atuação como mandatário de qualquer uma das partes envolvidas na disputa. Também deve-se considerar suspeito o juiz que tiver aconselhado ou emitido opinião a uma das partes a respeito da causa ou aquele que estiver interessado em julgamento favorável a uma delas. A norma prevê também que o juiz possa alegar “motivo íntimo” para declarar-se suspeito. Ainda que possa se notar certa subjetividade no CPC, é inegável evidenciar a importância de muitas das questões nele descritas. Em outros segmentos profissionais, cabe igualmente analisar estes aspectos, uma vez que alguns deles podem tornar as pessoas, moralmente, comprometidas a desenvolver atividades em prol de partes sobre as quais possuem algum tipo de relação e/ou proximidade extraordinária. Nestes casos, apenas o impedimento é capaz de garantir a manutenção da imparcialidade, sob pena da perda de credibilidade e de muitos, talvez todos, os seus primos, idoneidade, verdade, honestidade e respeito.
Jornalistas esportivas, donos e/ou funcionários de empresas e/ou orgãos de comunicação, ao prestarem serviços remunerados, de forma direta e/ou através de terceiros, para entidades esportivas e/ou atletas sobre os quais emitem seus comentários e opiniões em seus veículos de imprensa, promovem atos de violência aos princípios de credibilidade, idoneidade, verdade, honestidade e respeito que regem o jornalismo. Atuar junto a ‘diferentes atores de uma mesma peça’, evidencia nitidamente a presença de conflito de interesses. Não há como acender vela, simultaneamente, para tais santos. A arma maior utilizada por estes maus profissionais (talvez haja certa gentileza nesta denominação), além da cara de pau impressionante, é vender isso como algo natural, incentivando a tantos outros a seguirem por este caminho nefasto. Mas o círculo é ainda maior. As empresas que os empregam, ao cerrarem os olhos para tais práticas, acabam por se tornarem cúmplices. Até certas ressalvas são questionáveis, uma delas diz respeito ao jornalista ser também torcedor. Respeito e acredito que um jornalista possa ser admirador de uma equipe e, ainda assim, desenvolver sua atividade de forma isenta. Ainda que tenhamos exemplos em que a paixão clubística tenha impedido a atuação no jornalismo esportivo. Um deles aconteceu com o saudoso Joelmir Beting, um dos maiores de todos os tempos. Por volta de 1959, trabalhando como jornalista esportivo da Rádio Panamericana, atual Jovem Pan, após comemorar um gol do seu Palmeiras diante o Corinthians, acabou repreendido e quase agredido pela torcida rival. Este foi o estopim para que ele resolvesse rumar para outra vertente do jornalismo, a economia. Outros tempos e, mais ainda, estamos falando de Joelmir, um exemplo de retidão. Ao longo do Brasil, graças a Deus, há alguns exemplos. Temo que sejam poucos, ainda assim, tenho a grande expectativa que eles consigam se manter e perpetuar as melhores práticas e valores que dignifiquem sua profissão. Esta resistência potencializará a sobrevivência do verdadeiro jornalismo esportivo. Necessidade alguma de obter novas receitas financeiras pode ser maior que a credibilidade de uma pessoa. A verdade, à frente, é inexpugnável.

José Renato Sátiro Santiago

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Consultor e Professor, atuo e escrevo sobre temas relacionados a Gestão do Conhecimento, Inovação, Pessoas, Projetos e Lições Aprendidas

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