O futebol põe fogo nas relações diplomáticas entre Brasil e Chile

No dia 3 de julho de 1987, a cidade argentina de Córdoba, cerca de 700 km da capital, Buenos Aires, foi o palco de uma partida que deu início a uma rivalidade sul americana que quase resultou em um conflito diplomático. Naquela ocasião a seleção brasileira, dirigida por Carlos Alberto Silva decidira com o Chile, quem passaria para a segunda fase da Copa América. Em uma noite desastrosa, os brasileiros, que precisavam apenas de um empate para se classificar, foram impiedosamente goleados pelos comandados do técnico Orlando Aravena, que até então dividia seu tempo também com a equipe do Palestino, por 4 a 0. Aquele resultado animou os chilenos que fizeram uma grande campanha, chegando a final da competição, quando foram derrotados para os uruguaios por 1 a 0. Quanto a seleção brasileira, ainda que Carlos Alberto tivesse em suas mãos, grandes nomes, tais como Carlos, Taffarel, Jorginho, Ricardo Rocha, Raí, Careca, Muller e Romário, dentre outros, e tivesse conquistado a Medalha de Prata nos Jogos Olímpicos realizados em Seul, no ano seguinte, a posse de um novo presidente na CBF, Ricardo Teixeira, em 1989, deu fim a um trabalho que parecia trilhar um bom caminho. Em seu lugar foi contratado Sebastião Lazaroni, técnico credenciado por ter conquistado os títulos cariocas entre 1986 e 1988, e que vinha com o firme propósito de europeizar o esquema de jogo de nosso selecionado.
Em campo, os brasileiros pareciam não se acertar e às vésperas da Copa América de 1989, que seria realizada em terras nacionais, três derrotas consecutivas, para Suécia, por 2 a 1, Dinamarca, 4 a 0, e Suíça, 1 a 0, deixou a imprensa e torcida apreensivas quanto ao futuro de nossa seleção nas eliminatórias para a Copa do Mundo da Itália em 1990. Quanto ao Chile, a seleção de futebol parecia viver seu melhor momento, sob a atenção do falastrão Aravena, que bradava para a imprensa em geral que a vaga para a Copa do ano seguinte estava no papo, uma vez que passaria, sem maiores problemas pelas seleções da Venezuela e do Brasil, a quem já houvera, segundo ele, humilhado em 1987. No entanto, após um começo hesitante na competição sul americana, a seleção brasileira parece ter acertado seu rumo e a conquista da Copa América, após vitórias convincentes diante a Argentina, com Diego Maradona, por 2 a 0, e frente ao Uruguai, do genial Enzo Francescoli, por 1 a 0 na final realizada em 16 de julho, deu fim a um jejum de 40 anos sem este título e novos contornos para a disputa pela vaga para a Copa de 1990. Para Aravena, no entanto, pouca coisa mudara, e ele continuava prometendo que faria o Brasil ficar de fora do mundial pela primeira vez na história. Após vitórias tranquilas diante os venezuelanos, brasileiros e chilenos se enfrentaram em 13 de agosto na capital chilena, em um jogo que passou para a história como “A Batalha de Santiago”. O técnico chileno bradava pelos periódicos locais que faria do estádio Nacional, um inferno para os brasileiros. Logo aos 3 minutos de jogo, após muita provocação, o atacante Romário partiu para cima dos adversários e acabou expulso, o mais precoce cartão vermelho da história da seleção brasileira de futebol. Pouco depois, o lateral esquerdo Branco levou uma entrada criminosa do meio campista Ormeño e saiu de campo. Ainda assim, os brasileiros conseguiram sair à frente no placar, após um gol contra de González, mas acabaram sofrendo o empate a pouco menos de 10 minutos do final da partida em um lance inusitado, em que um atacante chileno tomou a bola das mãos do goleiro Taffarel e bateu rapidamente uma falta em dois lances a poucos metros da linha do gol, para o tento de Palacios. O clima de tensão vivido no estádio chileno com mais de 60 mil pagantes acabou saindo do controle e a embaixada brasileira em Santiago foi alvo de centenas de pedras e tentativas de invasão. Nada se comparado ao que viria acontecer após o jogo decisivo marcado para o dia 3 de setembro no Maracanã.
Aravena e seus comandados estavam preparados para uma guerra diante um publico superior a 140 mil pagantes. Apenas a vitória classificaria ‘La Roja’, como a seleção chilena é conhecida. Quanto ao Brasil, bastaria um empate. O primeiro tempo foi bem duro, mas com pleno domínio brasileiro que só não abriu o placar por conta de grandes defesas do goleiro Roberto Rojas. Já o segundo tempo reservaria ainda mais emoção. Logo aos 4 minutos, Careca chutou forte e superou Rojas, marcando 1 a 0. Agora os chilenos precisariam de pelo menos dois gols. No entanto, aos 23 minutos, o arqueiro Rojas caiu no gramado próximo a fumaça de um rojão que caira atrás dele. Em seguida os demais atletas chilenos o cercaram e foi possível notar a presença de muito sangue no rosto do goleiro. Alegando falta de condições de segurança, o técnico Aravena mandou que seus atletas saíssem do campo. Após mais de vinte minutos de espera o árbitro argentino Juan Carlos Loustau deu por encerrada a partida. Em Santiago, os chilenos saíram as ruas para comemorar o feito de seus heróis que “deram o sangue pela pátria”. Alguns deles, partiram, novamente, para a embaixada brasileira, que foi ferozmente apedrejada e invadida. Autoridades dos dois países emitiram notas oficiais exaltando a histórica relação pacífica entre os países. Brasileiros, moradores no Chile, foram vítimas de agressões verbais, assim como chilenos, em terras brasileiras. Alguns deles chegaram até mesmo às “vias de fato”. Em faculdades locais, estudantes chilenos e brasileiros chegaram a formalizar campanhas em prol da amizade e paz entre os dois países.
Foram semanas de muita animosidade, até que se descobriu a farsa arquitetada pela comissão técnica chilena e pelo goleiro Rojas, que entrou em campo com lâminas escondidas em suas luvas, e fez cortes em seu supercílio, tão logo identificou a oportunidade, no caso de um rojão ter caído no gramado próximo a ele. Ele, o técnico Orlando Avarena, o médico Daniel Rodríguez e o dirigente da federação chilena Sergio Stoppel foram banidos em definitivo do futebol pela FIFA. O capitão da equipe, Fernando Astengo, pegou suspensão de quatro anos. E o Chile além de não ter conseguido a classificação para a Copa do Mundo de 1990, foi impedido de sequer disputar as Eliminatórias para a Copa de 1994. Diante tudo o que foi revelado pela investigação feita, a FIFA acabou definindo como resultado final da partida, vitória brasileira por 2 a 0. Classificada para a Copa do Mundo, a seleção faria uma campanha fraca na competição, caindo já nas Oitavas de Final diante a Argentina. Por fim, a responsável por ter jogado o rojão que chegou ao campo e provocou toda esta celeuma, Rosenery Melo, ganhou seus minutos de fama ao ser capa da revista Playboy na edição de novembro de 1989. Veio a falecer em 2011 aos 45 anos.
