Quebra de Hierárquia: Ao não demitir o técnico Cuca, o Santos se apequenou

Nascido na cidade mineira de Itabirito, Telê Santana da Silva foi um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro. Como atleta ficou conhecido como “Fio de Esperança” parte por conta de sua magreza, mas também por ser decisivo em momentos agudos das partidas. Já como técnico se tornou uma lenda e passou a ser conhecido como “Mestre”. Responsável por formar uma das maiores equipes de futebol de todos os tempos, a seleção brasileira de 1982, bem como o extraordinário elenco do São Paulo Futebol Clube, que durante cerca de dois anos dominou o futebol mundial, Telê é reconhecido como um dos maiores técnicos da história. Muito competente e adepto de rigorosas técnicas de gestão, ele se destacava também pela paciência que tinha junto aos atletas, digamos, não muito talentosos. Era capaz de ficar por horas a fio treinando fundamentos com cada um deles. Para destacar apenas um, Cafu, o capitão que levantou a taça de pentacampeão mundial com o selecionado brasileiro em 2002, ao chegar no tricolor, no começo dos anos 1990, após ter sido reprovado em várias clubes, passou a treinar com Telê sobre como fazer cruzamentos. Até hoje muitos atletas que conviveram com os dois, destacam o quanto Cafu “sofria” com as intensas sessões de treinamento. Telê via com ótimos olhos a aplicação daquele jovem atleta que parecia não se cansar. Esta postura com jogadores que galgavam desenvolver novas habilidades não se repetia com aqueles que costumavam ferir aquilo que Telê mais prezava em um grupo, a hierarquia. Por conta disso, craques que costumavam desobedecer as regras estabelecidas sofriam punições e, não por acaso, coube ao tempo indicar quem estava com a razão. Atletas como, Muller e Válber, apenas para citar dois, eram reconhecidamente ‘verdadeiros monstros’ dentro de campo, jogadores muito qualificados que chegaram a conquistar o título mundial também pela seleção brasileira em 1994. No entanto, no clube do Morumbi, desobedecer as regras impostas por Telê fizeram deles atletas muito menores do que poderiam ter sido.
Em qualquer organização a obediência aos níveis hierárquicos costuma ser vista não como uma qualidade desejável a um profissional mas uma premissa básica, sem a qual cabe até mesmo a imediata quebra contratual, algumas vezes por justa causa. Dentro de qualquer estrutura empresarial a definição das atribuições a serem desenvolvidas por cada colaborador é algo básico que tem como principal objetivo buscar o atendimento das metas estabelecidas e, principalmente, a perpetuação da governança corporativa, que é o que garante a unicidade de qualquer instituição. Sem ela, qualquer caminho pode ser seguido, não há rota a ser traçada, uma vez que todos os funcionários poderão seguir o trajeto que quiserem sem se aterem ao fato de que fazem parte de um grupo e que apenas atuando de forma coletiva, os melhores benefícios serão alcançados.
No último dia 28 de agosto, após novo empate em 0 a 0 frente a equipe argentina do Independiente, o Santos Futebol Clube acabou eliminado da Taça Libertadores da América, por conta da atuação irregular do atleta Carlos Sánchez, na partida realizada na semana anterior em Avellaneda. Devido este fato, o placar do jogo que acabara 0 a 0 na Argentina foi alterado para 3 a 0 em favor do Independiente. Após a partida, o técnico Cuca deu uma entrevista onde desandou a fazer críticas a diretoria do clube ao afirmar: “…Pode até amanhã me mandarem embora. O Santos tem de melhorar muito profissionalmente, melhorar muito internamente. E não é pouca coisa. Isso que ocorreu (com Sánchez) é um erro muito grande, muito grave. É o “bê-a-bá” de situações que não podem ocorrer….”
Cuca é funcionário do clube e como tal não deve externalizar críticas sobre ações de seus colegas de trabalho. Caso as queira fazer que tenha a civilidade de pedir demissão do clube. Ao não demitir Cuca por esta quebra de hierarquia, a entidade Santos Futebol Clube se apequenou. Uma pena para uma das maiores instituições do futebol mundial de todos os tempos. O futebol como um todo perdeu mais pela não demissão do técnico que desacatou a direção de um clube como o Santos do que pelo grotesco erro da escalação indevida. Não irá demorar para que o caos se intensifique de vez no alvinegro da Vila Belmiro. A demissão de Cuca é o primeiro passo para a saída deste buraco onde o clube se meteu.

José Renato Sátiro Santiago

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