Isso não é uma máquina de escrever.

Estado de “flow” e onde está a escrita na web?

Isso não é uma máquina de escrever.

Eu não estou aqui para falar pelos outros, e acredito que o ato de escrever é um fim e um meio em si mesmo, diferente de outras profissões escrever é um ofício ou uma arte no sentido craft da palavra, ainda que possa ser exercido plenamente enquanto emprego.

Sinto que a dinâmica de produção em massa e intenso compartilhamento tem produzido um efeito no mínimo perturbador do lado de cá. De quem escreve assim. Qual o lugar de que se fala? Para quem se fala?

Não faz parte -ao menos do meu processo de criação- a ideia de objetivo pré concebido. Do lugar que se quer chegar antes de que se chegue, ou da pessoa que se quer alcançar antes que se tenha alcançado por acaso.

Posso até fazer dessa forma, mas sinto que me rouba da escrita a possibilidade de experimentar a catarse. Escrever é um espanto, é um encontro e também é uma libertação.

Eu escrevo me parindo, escrevo botando pra fora algo que não segura mais na minha identidade e que com sorte possa ajudar outra pessoa que também se sinta ligada ou conectada a isso de acordo ou desacordo com a identidade dela.

Percebi que meu bloqueio em relação a escrita compartilhada tem sido devido a como todas essas variáveis oferecidas pela web deixa nebuloso o processo de criação. E algo me diz que deveria ser mais simples, sobre isso ainda não sei ou tenho qualquer ideia.

Talvez eu esteja apenas me conhecendo melhor. Talvez eu não escreva mesmo para algo ou para alguém, eu escrevo porque e quando escrevo e pronto.

Então eu não tenho me encaixado ou venho relutando em me encaixar nessa realidade onde as pessoas querem ouvir sobre “o seu público específico” ou sobre o “seu tema” específico.

Estou tentando fazer as pazes com isso.

Quer saber? Fiz as pazes com isso.


A procura agora é por algo que sinto quando escrevo de forma privada e costumo chamar de estado de flow, e quero trazer isso para a escrita compartilhada.

Poucas vezes senti esse sabor ou esse cheiro ao escrever uma peça que tenha nascido com o objetivo de ser compartilhada, raríssimo então é quando a forma é a da prosa.

A poesia, por exemplo, é sempre uma catarse. Compartilha-se depois.

Existe isso na prosa? Acho que sim. E acho que é ao entrar nesse estado de flow.

Quero e tenho interesse.