O homem e o Rei

Dentre todas as coisas que o jovem arquiteto Arnaldo não entendia na vida a maior delas era a atitude do Rei de sua colônia, a majestade era um homem simples e de poucos hábitos autoritários, algo no mínimo estranho para os costumes locais e um absurdo na opinião de sua tia Roberta. “Um homem desses no lugar que ocupa, é uma vergonha que seja tão doce e dado a sorrisos” dizia Roberta, ultrajada, “Como há de ser feliz em um lugar onde não existe o punho? O respeito mora onde a ordem impera e nosso imperador tem as mãos frouxas”. Arnaldo discordava, afinal, festas de vívida comunhão eram permitidas e os habitantes passaram a ter maior autonomia para seguir seus próprios interesses. Certa feita, por exemplo, um jovem agricultor pedira uma audiência em particular com o Rei, e este mandou sua secretária informar que o menino podia entrar sem qualquer problema. Na sala ninguém soube o que aconteceu, mas o que se fala pela cidade é que o agricultor pediu o emprego de tesoureiro para o Imperador, já que o ocupante anterior do cargo estava afastado por um grave acesso de gota; diz-se que o jovem explicou que tinha afinidade com a ciência das finanças e que gostaria da oportunidade de aprender na prática mais sobre o assunto. “E não é que o homem deu o cargo para o mancebo? Que absurdo!” queixava-se Roberta para as irmãs, uma delas mãe de Arnaldo. Arnaldo ouvia atentamente, Arnaldo era bom nisso de ouvir, ainda que muito preguiçoso na arte de falar. “COMO PODE? Um agricultor cuidando do nosso ouro! Onde está a ordem?”, berrava Roberta. Certo dia o menino agricultor e agora tesoureiro soube que a vaga de diplomata (profissional que cuidava de assuntos internacionais da colônia) estava aberta, e perguntou ao Rei se havia possibilidade de lograr tal ofício, o Rei mais uma vez confiou o nobre cargo ao jovem que estava a fazer um magnífico trabalho como tesoureiro; mas agora ninguém mais sabia se o rapaz era agricultor, tesoureiro ou diplomata, ele não se importava. Nesse dia a mesa de jantar da casa de Arnaldo foi aquele tumulto, “Ó, Céus, o que Margarida aquela minha amiga antiga que mora por lá na colonia ao lado há de achar de mim e dos que moram aqui? Isso não está certo! ELE NÃO É UM REI!”, Arnaldo percebeu que de vez em quando se fala na vida, tomou um pouco de coragem e pontuou “Tia, o imperador não é um Rei, você que é.”