Breve análise cruzando a evolução do sertanejo e as nuances emocionais do homem hétero brasileiro

Antes uma dúvida: Só eu compartilho do sentimento de querer o Sergio Reis como avô? (❤)

Bem 2019 está aí, e eu pretensiosa que sou pensei em começar o ano, bancando a jornalista e trazendo um texto informativo e cheio de reflexões para vocês.

Como uma boa filha de mineiro que sou, cresci comendo pão de queijo e ouvindo muita música sertaneja, e os caminhos que esse ritmo brasileiro vem tomando são no mínimo “curiosos”, pelo menos para mim que sempre acompanhei.

Não é novidade para ninguém que até pouco tempo atrás o território da música sertaneja era prioritariamente masculino, eis que há pouco mais de uns dois anos, o chamado “feminejo” ganhou um espaço gigante no coração (e ouvidos) dos brasileiros.

Se existe prova mais concreta que o feminejo pegou, ainda não me mostraram ❤

Mas vamos dar alguns passos para trás e entender a evolução desse momento lindo da música sertaneja:

Vamos agora para o detalhamento dessa trajetória:

Sertanejo Raiz (caipira de boas)

1910 — 1979

Ousado que só, o homem branco brasileiro já aprontava das suas desde cedo, e os índios não entendendo nada do porque o homem branco carpia tanto mato pra construir suas casas, apelidaram eles de “caa pira” (cortam mato).

E até a viola, vinda de Portugal para ajudar na catequização dos índios, os bonitos também resolveram se apropriar, e daí vem a origem da “viola caipira” , ou seja, o homem branco brasileiro sempre viveu na base da ousadia e alegria.

Mas que bom né, daí surgiram os mais diversos modões de viola, sempre falando da vida na roça, contando alguma história, de gente, fantasma e boiada.

Não tinham muita preocupação em falar de amor não, era muito casamento arranjado e lote pra carpir.

Vamos analisar algumas letras dessa fase “vida na roça”:

“Chico Mineiro” Tonico e Tinoco - 1958
Fizemos a última viagem
Foi lá pro sertão de Goiás
Fui eu e o Chico Mineiro
Também foi o capataz

(olhando esses versos notamos que a musica descreve uma viagem de trabalho com um parça, bem de boas)


“O Menino da Porteira” Luizinho e Teddy Vieira - 1973
Toda vez que eu viajava pela Estrada de Ouro Fino
De longe eu avistava a figura de um menino
Que corria abrir a porteira e depois vinha me pedindo
Toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo

( bem fofa e trágica essa, para quem não lembra SPOILER ALERT o menino da porteira morre no final)


Mulher famosa vanguardista, infiltrada nessa fase:

A fofinha da Inezita Barroso ❤

Sertanejo Romântico (eita, amar dói)

1980 — 1999

Mas como nem só de roça vive o caipira, uma hora ele ia se apaixonar, não é mesmo? E foi assim, com guitarras elétricas e uma pitada de influência europeia pós segunda guerra, o homem brasileiro começou a se abrir para o amor. E como era de se imaginar, só sabia sofrer, beber para esquecer, resmungar e sofrer mais um pouquinho. Nessa fase nasce a tão famosa dor de corno, entre outros dramas afetivos do homem sertanejo.

Vamos ver alguns trechinhos das letras dessa fase?

“É o Amor” Zezé Di Camargo & Luciano -1991
E eu sou o seu apaixonado 
De alma transparente 
Um louco alucinado 
Meio inconsequente

Um caso complicado, de se entender
É o amor 
Que mexe com minha cabeça 
E me deixa assim

(amigo Zezé sinto te dizer que a gente evoluiu um pouco, tá fazendo terapia, e cara, olhando assim agora, isso aí não era só amor não, tinha um baita de um desequilíbrio emocional junto)


“Não Aprendi Dizer Adeus” Leandro & Leonardo -1999
Não aprendi dizer adeus
Mas deixo você ir
Sem lágrimas no olhar
Se adeus me machucar
O inverno vai passar
E apaga a cicatriz

(eu adoro que ele “deixa” ela ir, dá pra perceber que no finzinho do sertanejo romântico eles estavam tentando, de um jeito meio torto, mas ok, ainda sim tentando, serem mais maduros)


Mulher famosa desbravadora, infiltrada nessa fase:

A ousada da Roberta Miranda❤

Sertanejo Universitário (passar o rodo)

2000 — 2012

Século novo, vida nova. Se fui corno, nem me lembro. Agora o homem hétero brasileiro começou a “estudar” e como é sabido por todos, faculdade no nosso país tropical é regada de cerveja (quente) e festa (cheia de jovem dando pt).

E quem tem memória boa vai lembrar que no começo dos anos 2000 não era qualquer um que entrava na faculdade ainda, então a gente teve a fase dos playboy pegador ostentando o carro e eventualmente, as meninas que eles achavam que conquistavam com isso (antes até o funk ostentação, vejam vocês).

Observe e se divirta com essa fase boba dos nossos meninos:

“ Balada (Tchê Tchê Rere)” Gusttavo Lima - 2011
Eu já lavei o meu carro, regulei o som
Já tá tudo preparado
, vem que o brega é bom
Menina fica a vontade, entre e faça a festa
Me liga mais tarde, vou adorar, vamos nessa
Gata, me liga, mais tarde tem balada
Quero curtir com você na madrugada
Dançar, pular até o sol raiar

(o cara não conta que tomou um banho, sei lá, escovou o dente para se preparar para o date/rolê, NÃÃÃO ele prioriza a informação lavei o carro regulei o som, é sério, homem é um bicho engraçado)


“Camaro Amarelo” Munhoz & Mariano -2012
Agora eu fiquei doce igual caramelo
Tô tirando onda de Camaro amarelo
Agora você diz “vem cá que eu te quero”
Quando eu passo no Camaro amarelo

(lá vem o bonito do carro importado VRUUUM VRUUUM, veloz e furioso ele, agora todas querem. eu conto ou vocês contam que ele só precisava de auto confiança ’e banho’ pra chegar nas gata? mas claro que ele escolheu o caminho mais caro, um carro topster)


Mulher famosa corajosa, infiltrada nessa fase:

Nenhuma quis passar essa vergonha.

Sertanejo Romântico II (contemplando o amor)

2008 — 2015

Naquela bagunçinha que foi o universitário, tinha uma pontinha do iceberg do amor (pelo amor de Deus, Jorge e Mateus ). E nesse curto intervalo que a galera da pegação louca deu uma pausa, o homem hétero príncipe encantado ganha espaço fazendo letras cheia de borboleta e amor. cafona? com certeza! sucesso? sem dúvida!

Dá gosto de ver como nessa fases eles encarnaram o príncipe encantado campestre:

“Borboletas” Victor e Leo -2008
Não sei dizer o que mudou
Mas nada está igual
Numa noite estranha a gente se estranha e fica mal
Você tenta provar que tudo em nós morreu
Borboletas sempre voltam
E o seu jardim sou eu

(o que dizer dessa canção além dela digna de um ppt bem cafona que gente recebia por email no começo dos anos 2000, com aquelas foto natureza photoshopada e bebês de fundo)


“Meteoro” Luan Santana -2009
Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração
Você é raio de saudade
Meteoro da paixão
Explosão de sentimentos
Que eu não pude acreditar
Ah! Como é bom poder te amar!

( Luanzinho com meteoro foi a cereja do bolo pra me ajudar a provar que existiu SIM, esse curto período de um mix entre romantismo e fenômenos da natureza)


Mulher famosa natureza e amor, infiltrada nessa fase:

A tem que goste (haha) Paula Fernandes

Feminejo (sofrência delas)

2016 — atualmente

Como era de se esperar o amor lúdico e cheio de borboleta teve prazo de validade curto. E o sertanejo universitário estava preparado pra atacar novamente, mas na velocidade da luz, ELAS tomaram todo o protagonismo. Sem bandeiras, mas cantando uma mulher cheia de atitude, que também bebe, trai e é traída, pela primeira vez a gente pode ouvir da boca delas a versão desse amor sertanejo, cheio de sentimento e sofrência.

Agora chegou a hora de olhar com carinho os trechinhos dessa guinada bonita no sertanejo:

“10%” Maiara & Maraisa -2016
Garçom troca o DVD
Que essa moda me faz sofrer
E o coração não ‘guenta
Desse jeito você me desmonta
Cada dose cai na conta e os dez por cento aumenta

(eu não sei vocês mas eu particularmente amo o jeito divertido que a mulher retrata a sofrência, acho que a gente já sofreu tanto por causa de relacionamento que aprendeu a rir de si mesmas com maestria)


“Alô Porteiro” Marília Mendonça -2016
Já deu
Cansei das suas mentiras mal contadas
Cresci, não acredito mais em conto de fadas
Não adianta vir com baixarias
Morreu
A mulher carinhosa e fiel que te amava
Pega o elevador, a sua mala e vaza
To avisando lá na portaria
Que aqui você não entra mais

(nessa, bem farta e sem risadinha Marília resolve botar o cara pra fora e fim de papo. Essa mulher não dá né? É bom demais!)


Mulheres famosas, reinando nessa fase:

TODAS ❤ : Marília Mendonça, Maiara & Maraisa, Naiara Azevedo e Simone & Simaria

Sertanejo Universitário Romântico (confuso e posssessivo)

2016 — atualmente

Depois do boom do feminejo, finalmente o homem sertanejo universitário consegue voltar para cena, mas agora completamente confuso e inseguro sobre sua musa inspiradora.

O mundo deu uma sacudida, a gente conhece caras por aplicativo e neles implicitamente a mulher detêm o poder de escolha, desempata o jogo e escolhe!

Aí você pode dizer, aí lá vem as feministas, e você está certo, não sei se foi #MeToo, #ChegaDeFiuFiu #MeuAmigoSecreto, só sei o empoderamento feminino respingou pra tudo quanto lado no Brasil, e na minha sincera opinião, a última onda de sertanejos universitários recentes, são ótimos, super chicletes, mas retratam um homem COMPLETAMENTE PERDIDO EMOCIONALMENTE diante a essa enxurrada de mulherão da porra (digo, da buceta).

Até compilei uns trechos a mais para vocês não acharem que é piração da MINHA CABEÇA, se liguem nessas letras:

“Vidinha de Balada” Henrique & Juliano -2017
Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada
E dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca
Vai namorar comigo sim
Vai por mim igual nós dois não tem
Se reclamar ‘cê vai casar também, com comunhão de bens

Seu coração é meu e o meu é seu também

(oi? aqui vemos o claro delírio do rapaz, que já tá planejando casamento com uma mina que provavelmente conheceu na balada, poxa jovem, CALMA! )


“Contrato” Jorge & Mateus — 2017
Eu vou fazer um contrato
Se liga nas cláusulas
Assina embaixo
E não muda nada
Vai ter que acordar com um beijo todo dia de manhã
E aceitar café na cama com chazinho de hortelã
Ganhar massagem no pezinho na banheira de espuma
E, depois do jantar, a louça é minha e não é sua

Já vou deixando bem claro
Esse contrato é vitalício
‘Cê ‘tá amarrada aqui comigo

Nesse contrato da paixão
A rescisão é um milhão
De onde ‘cê vai tirar isso?

(tirando a louça, é vacilo atrás vacilo. ele sabe se a menina curte beijo com bafo de manhã? chá de hortelã? E CARA, DEIXA A MINA TOMAR O BANHO DE ESPUMA EM PAZ, VELHO! ela precisa de um pouco de espaço, sabe? Fora que: ‘cê tá amarrada aqui comigo’ me lembra sequestro relâmpago, pelo amor de Deus Jorge e Mateus, vocês já foram mais bem resolvidos)


“Te Assumi Pro Brasil” Matheus e Kauan -2016
Arrumei a mala há mais de uma semana
Só falta você me chamar pra eu fugir com você
Mudei meu status, já ‘tô namorando
Antes de você aceitar, já te assumi pro Brasil

(adoro esse, que é o iludido né, muda o status sozinho e já tá namorando, engraçado, quando eu tinha 13 anos eu também namorava um menino e ele nem sabia, cruzava com ele todo dia voltando da escola e inventei que a gente namorava — Renatinho, um beijo, onde quer que você esteja, foi um relacionamento platônico lindo, sumi porque dei uma amadurecidinha e fui viver um relacionamento real e recíproco)


“A Mala é Falsa” Felipe Araújo part. Henrique & Juliano -2016
Eu sei que a cena é forte, vai doer agora
Arrumei minha mala, tô caindo fora
Você não percebeu, mas esfriou
Caiu na rotina, você descuidou
Eu só queria um pouco de carinho
Fica tranquila amor eu tô fingindo
A mala é falsa amor
Engole o choro, embora eu não vou
Agora vê se aprende a dar valor
Mata minha sede de fazer amor

(esse se eu vejo na rua não peço autografo eu peço para dar um tapa de leve, um tapa de fã, sabe? respeitoso até, é que essa música é o CUMULO DA CHANTAGEM EMOCIONAL DO LEITE COM PERA “TRANSÃO”, PQP, fico pistola com essa, real, AAAAAAA)


Mulher famosa perdida, infiltrada nessa fase:

Felizmente temos um: poxa, nenhuma mulher!

Resta a dúvida, será que é apenas uma fase de adaptação passageira para nosso querido homem hétero ou eles tem pretensão de assustar a gente por mais muito tempo com letras cheias de possessão *demoníaca*?

E em tempo, o que será que vem depois disso? O que o emocional reprimido e bagunçado deles vai querer falar depois de tanto casamento a goela abaixo?

Meninos, vamos lá, botem a mão na consciência, tô esperando o melhor de vocês! Porque hoje… assim… na boa, tá meio creep, meio weirdo e não tamô falando dos roqueiros anos 90 sem muito acesso ao convívio social do Radiohead, VAI TIME.

*PS: Sigo cantando junto todas as cancões citadas no texto quando elas tocam no rádio, sou péssima nesse lance de boicote, é só um toque de amiga, sabe?