Retratos do TDAH I — Madrugada
São quatro e meia da manha e eu não consegui dormir.
Não se trata de uma noite diferente das outras. Pra eu dormir sempre foi um problema, apesar de ser algo que eu gosto bastante. Pra mim, a escravidão voluntaria das pessoas para com o tempo sempre pareceu boba, uma espécie de idiotice coletiva que todos concordam sem questionar, como se o tempo fosse uma espécie de Deus. De um ponto de vista biológico, não faz sentido pra mim que existam horários para acordar e pra dormir. O próprio tempo, já foi provado, não existe. E uma ferramenta bem humana, que serve para que consigamos organizar as nossas ações e assumir uma rotina.
Meu cérebro, assim como o cérebro de todo TDA, precisa de estimulo e pra mim esse estimulo vem em forma de informação. Quanto mais eu aprendo, quanto mais eu conheço um assunto e quanto menores são as chances de alguém saber mais do que eu sobre esse assunto, mais tranquilo e mais sereno eu me sinto. Algumas pessoas podem interpretar isso como sendo síndrome de Einstein, mas elas podem pensar o que quiserem. A verdade e que o meu cérebro precisa de informação como uma planta precisa de agua.
Toda noite, quando os carros estão parados nas garagens, os cães dormem em suas casinhas, os passarinhos se escondem nos ninhos, a conversa se cala e os rádios e televisões se desligam, ou seja, quando os estímulos da vida urbana cessam, existe o silencio. O silencio é simplesmente lindo. Amo musica, adoro filmes e gosto de percussão, mas o silencio é como um manto sublime que envolve o meu corpo e me permite pensar por longos períodos, sem interrupção, sem ruídos, sem nada, apenas eu e os meus pensamentos. Nesses preciosos momentos eu começo a me perguntar, buscando respostas em mim mesmo e na internet, que tem sido minha amiga por toda a vida.
Se a pergunta não surgiu durante o dia, ela surge na hora. Se não surgiu na hora, ela surge durante a minha busca aleatória e infinita por estimulo.
Olha que clipe de musica legal! Quem são os integrantes da banda? De onde eles são? Qual a inspiração pra essa musica? Será que outras pessoas compartilham o meu sentimento por essa musica? Será que ela tem outras versões? Acústico ou estúdio? Ou remasterizado? Que filmes essa musica faz trilha? Será que os integrantes da banda gostam dela? Se sim, por quê? Se não, por quê? Fulano não gosta dessa musica… Mas como pode? Essa musica e genial! O que faz ele não gostar? De time de criação ele teve pra não gostar de algo assim? Será que e algo compreensível ou será que e pessoal? E o que determina os outros gostos de Fulano? Será que eu consigo gostar do que ele gosta se entender o porquê dele gostar? E assim a noite segue.
As vezes a pergunta não chega. Quando isso acontece eu prefiro pensar em nada por alguns instantes, até que eu começo a escutar os barulhos do meu corpo. Meu coração bate, minha boca enche de saliva, eu sinto coceira na cabeça, preciso me virar, preciso arrumar o elástico da cueca e assuar o nariz. O cérebro do TDA e covarde e busca estimulo a todo custo. Logo eu engulo a saliva, coço a cabeça, me viro, arrumo o elástico e assuo o meu nariz… E o foco no silencio desaparece permanentemente. As vezes consegue ser mais sutil que isso: o próprio ritmo da minha respiração transforma-se numa melodia rudimentar que logo vira uma sinfonia que mistura batimentos cardíacos, respiração, dentes rangendo, zumbido no ouvido e ate mesmo o barulho dos meus olhos piscando.
Uma pergunta tem rondado a minha cabeça nos últimos dias. Toda pergunta precisa de uma resposta e a resposta tem de vir de uma forma ou de outra. ‘Porque eu decidi fazer isso?’, no contexto de porque eu decidi assumir essa briga? Briga? Que briga?
A briga das pessoas que tem TDA. Mas contra quem e essa briga? Essa briga, numa microescala, e contra os contratempos causados pela condição, numa macro escala, contra o próprio modelo de sociedade que temos hoje. E porque eu? Existem grandes doutores com importantes diplomas, existem especialistas que estudam o TDA ha mais tempo do que eu vivo. Eu me escolhi como representante pois eu tenho TDA, simples assim. Eu não preciso de outro motivo que não impedir que outras pessoas passem pelo que eu passei. Eu me tornei um humanista ao conhecer os ensinamentos de Buddha e vi que a felicidade só vai ser atingida quando todos cometermos o absurdo de cuidar do próximo. Ver a superação me emociona, as vezes me faz chorar. Me arrepia e….
E é nesse momento que eu encontro uma resposta. Me arrepia. O arrepio, ou a sensação chamada Frisson, ocorre quando temos uma descarga de endorfina, o hormônio do prazer, de forma repentina. Para ele ocorrer a pessoa tem que ser exposta a uma intensa carga emocional positiva, que a deixa alegre e satisfeita. A chave da minha alegria, então, é ajudar o próximo. Podem ate duvidar das minhas intenções, mas em minha defesa eu digo: Eu me sinto feliz pela mudança que eu causei na vida da outra pessoa, não pela vaidade de ter sido aquele que causou a mudança. Eu não preciso de louros, nem mesmo que saibam que eu fiz, eu preciso ver o resultado da compaixão na minha frente e sentir literalmente na pele a felicidade de ver o outro feliz.
Agora já são cinco da manha e o sono esta vencendo. Com certeza quando acordar eu estarei num estado miserável de cansaço, irritação e todos os outros sintomas de uma noite mal dormida. Esse é o destino do escravo que se rebela, alias. Tomar umas chicotadas. Não se preocupe tempo, ainda hei de atacar-vos nos próximos textos.
Valeu a pena então toda essa retorica somente pra dizer que ajudar me faz feliz?
Pra mim valeu.