Rick and Morty e a Ressignificação da Realidade

(Ou “Por que você deve assistir a essa série”)

Rick and Morty é uma série animada americana que estreou em 2014, no bloco adult swim do Cartoon Network. Investindo na grandiosidade da sinopse e falando com o coração de um expectador apaixonado, é um belíssimo exercício criativo de Justin Roiland, Dan Harmon e sua equipe. Um respiro singular de originalidade e ousadia dentro do vasto universo das animações adultas. Mas por que ela é tão sensacional assim? Por que você deve perder seu tempo assistindo?

Bom, vamos por partes.

SOBRE O QUE É RICK AND MORTY

A série mostra as aventuras insólitas do cientista beberrão Rick Sanchez e seu neto inseguro e com hormônios em ebulição Morty Smith, membros de uma família americana comum, composta também por Jerry, um pai ignorante; Beth, uma mãe sensata e Summer, uma irmã mais velha, típica adolescente alienada, que se compadece do irmão quando passa a integrar as aventuras de seu avô. Seria uma série sem grandes atrativos se ela não fosse realizada de forma tão única.

Entre planetas, universos, realidades paralelas, problemas conjugais, monstros, escola e TV a cabo, Rick and Morty é uma série sobre a nossa insignificância perante a tudo o que existe. Ou como a nossa realidade é descartável e por isso deve ser valorizada. É um protesto comedido à nossa arrogância enquanto seres humanos, que na série se apoia em formas fálicas e piadas de peido. Mas não, não é um grito infundado e revoltado para a imensidão do universo onde cada episódio é uma viagem inesperada e visceral o bastante pra gerar espanto.

Rick and Morty trata todo esse peso pessimista que trazemos dentro de nós com leveza, ao menos na maior parte do tempo, se nós considerarmos os espasmos niilistas que chacoalham nossa mente presentes em todos os episódios.

Explorando situações inimagináveis, que por si só já são uma grande marca de sua ousadia, a série bebe direto da moringa do Horror Cósmico trazido e firmado por HP Lovecraft como um gênero de terror literário que tem como alvo principal o medo mais primitivo do ser humano, abalando questões filosóficas e morais usando o desconhecido como mote e, ora veja só, parte do princípio que o ser humano é uma espécie passageira e insignificante. HMMM, INTERESSANTE… Rick and Morty é Horror Cósmico em essência e… referências!

Morty visivelmente abalado de estar enterrando seu próprio corpo sem vida em outra realidade, a qual ele e o avô irão assumir seus papéis dali em diante. Game of Thrones é a série que mais incentiva o desapego a personagens? Não mesmo.

O QUÊ (E COMO) A SÉRIE FALA

Considerando que o niilismo tá na moda e uma vida assumidamente sem significado não é sinônimo de apatia, a série nos motiva a rir da nossa condição, a não levar isso a sério, pois, no fundo, não é uma grande questão. Só é… uma questão. Ok, as coisas acabam, nós acabamos e enquanto isso nós aproveitamos e fazemos valer a experiência (bem como pregou Nietzsche em seu Eterno Retorno). Vamos rir disso toda vez que a gente lembrar que nada é pra sempre e Deus não existe! É engraçado.

Engraçado também como o existencialismo que dominou toda a primeira parte deste texto é um pano de fundo para boas piadas e referências à cultura pop — e a cultura nem tão pop assim — atiradas euforicamente no nosso colo, em um show confortável de assistir, um desenho que funciona muito bem pra preencher seu horário de almoço. Ou se você já maratonou e gastou vários tweets com as séries que a Netflix lançou essa semana.

É resultado da habilidade de Dan Harmon, criador da série Community, e da veia satírica de Justin Roiland a presença das referências que enriquecem Rick and Morty. Desde o título dos episódios até enredos inspirados em antigas séries sci-fi obscuras, franquias de filmes famosíssimas, livros, músicas, frases, essas referências nos mostram a faceta da liberdade criativa que torna a série tão especial.

“Look Who’s Purging Now”: o nome é em referência a “Olha Quem Está Falando Agora”, ~marco da carreira de John Travolta; o episódio é baseado em “The Purge”, aquela noite de crime. Nada é gratuito.

A afinidade da equipe, em uma comunhão de ideias, se mostra evidente para a audiência, por exemplo, nos episódios em que a família Smith assiste à TV a cabo interdimensional: ela pega qualquer canal de qualquer realidade existente. Todo o conceito do episódio foi resultado de uma brincadeira entre os dubladores da série, que cuspiam ideias no estúdio de gravação sem preparação prévia. Nos próprios episódios podem-se notar as risadas espontâneas em meio aos absurdos que eles falavam uns pros outros. Esse é o real espírito da série, não se levar tão a sério. Nem mesmo enquanto um produto que precisa passar por diversas fases de criação e tem uma data pra ser transmitido na TV.

Rick and Morty não é uma série que levanta bandeiras, mas trata sobre tudo com naturalidade. É uma série fantástica e fantasiosa, mas de um realismo impressionante. Ela mostra eventos comuns à vida humana, agradáveis ou não, de forma natural, em contraponto com acontecimentos impossíveis.

Ciclos de vida inteiros representados das mais diversas formas, como um filho alienígena de Morty ou um jogo simulador da vida humana, mostrando que tudo padece e toda ação tem uma consequência; uma criatura que tenta estuprar Morty em um banheiro de um planeta distante; o destino do planeta Terra dependendo de um reality show musical de outra galáxia; a noção de sexualidade subjetiva e poliamor de Rick com uma consciência coletiva; a “personificação” em forma de monstros sanguinários dos descontentamentos de Jerry e Beth enquanto um casal; parasitas alienígenas que implantam memórias na mente humana pra se multiplicarem sem ser notados. Essa é a grande magia do fato de Rick and Morty ser um desenho: é tudo muito possível, mas de uma forma pouco usual.

Rick Sanchez sobre Rick and Morty.

TÁ, E O QUE MUDA NA MINHA REALIDADE?

Falando como expectador, consumidor de séries em uma quantidade segura para os padrões de sanidade mental do jovem adulto moderno, uma pessoa que aprecia o bom humor e o bom roteiro, Rick and Morty é muito engraçado. Sério. Assim, de verdade. É bem engraçado. E por isso já vale a pena. Porque, por mais que você tenha achado ao ler este texto, Rick and Morty não é uma série pretensiosa, muito pelo contrário. Por mais que talvez os criadores sejam pretensiosos. Por mais que talvez os executivos do canal sejam pretensiosos. A série não é. Ela te dá liberdade de escolha, de como você a absorve e o que você faz com isso.

Em resumo, você pode curtir Rick and Morty como quiser, pode ver e rever, e ainda será um bom show. Um desenho animado me motivou a escrever este texto, ele não é qualquer coisa. (Embora eu leve desenhos animados bem a sério. Talvez não devesse tanto, né? Sei lá. Fica aí a questão).

Dá pra conhecer e aprender muito com a série. Ela não só mostra uma noção de realidade diferente de tudo o que já foi lançado no ramo ou como nós, às vezes, nos preocupamos com coisas pífias, julgamentos e criamos problemas demais, como também mostra uma noção alternativa de pensar em um conteúdo que realmente faça a diferença para um público. Pelo menos em curto prazo, já que no futuro nada vai continuar vivo para perpetuar essa história.

Se você ainda não se convenceu de que deve começar a ver Rick and Morty, volte na pergunta que fiz lá no começo do texto, que o próprio Morty responde sintetizando tudo o que eu falei aqui.

“Nobody exists on purpose, nobody belongs anywhere, everybody’s going to die. Come watch TV”.

Obs 1.: Se você já assistiu a série, é provável que já conheça a Rick and Morty Wiki, que é bem completa e bem editada, com muito conteúdo e dá pra pegar 99% das referências. Se não conhece entra lá (e de nada).

Obs 2.: O parágrafo sobre o Horror Cósmico foi inspirado nesse informativo vídeo do canal Wisecrack, que trata sobre a filosofia de Rick and Morty. Ah, tá recheado de spoiler.