Ainda não entendemos o que é “não”.

1. Designação de partícula negativa, inversa à partícula afirmativa sim; 2. Manifesta ou explicita negação ou rejeição; do mesmo significado da expressão: de modo nenhum; 3. Designação de jamais, negativo ou nunca.

Hoje pela manhã me peguei refletindo sobre alguns “nãos” que recebi ao longo da minha jovem vida. Por mais bobo que isso possa parecer, de súbito eu percebi que ainda não aceitei muitos deles ou o que eles queriam dizer. Consegui pensar em negativas recebidas em várias áreas da minha vida e como minha mente sofreu — e ainda sofre.

De alguma maneira eu fui bastante mimada até meus 14 anos de idade, mais ou menos quando o casamento dos meus pais se desfez em uma única tarde. Depois disso as coisas ficaram bastante complicadas, mas até então eu pensava que tinha uma família perfeita; mas não. A família não era perfeita, pois na verdade essa nem sequer existe na vida real. Tinha criado uma imagem imaculada dos meus pais e foi muito difícil aceitar que eles não eram perfeitos. Inclusive, eu comecei a conceber essa aceitação a não mais do que uns dois meses atrás, quando decidi pensar sobre isso. Estou trabalhando para aceitar esse não de maneira mais verdadeira à cada dia, à cada “falha” deles.

Ainda falando sobre os “nãos’’ da família, quando criança nunca aceitei o não como resposta. Chorava, vomitava, ficava doente quando me diziam que não. Claro, não entendia que muitos nãos vieram para me educar, me proteger e foram muito efetivos. Esse comportamento de chorar diante de respostas negativas me persegue até hoje, mas estou trabalhando nisso. O não tem o poder de entristecer o ser humano de maneira escandalosamente mais potente do que a alegria dos “sims”.

Na verdade, o mundo é um grande não. A sociedade em uníssono.

Não.

Hoje, 8 anos depois do meu primeiro choque significativo com a palavra “não” ainda sinto muita dificuldade em lidar com isso. Todos temos. Algumas vezes aceitar o não faz com que a gente se sinta melhor de alguma maneira; quando por exemplo, identificamos situações em que não é problema nosso. Não há com o que se preocupar. Dizer não é muito prazeroso em várias situações: não vou fazer isso porque eu não quero. Daí à alguém entender o que você disse é outra história.

O principal motivo que me trouxe para essa reflexão de hoje é: qual nosso problema em ouvir não? Quem foi que disse, em qualquer momento da vida, que não ouviríamos não, que não seríamos contrariados? Precisamos aprender (e quando eu falo precisamos estou falando de mim para mim mesma, me aconselhando através desse texto) que nem tudo vai sair do nosso jeito, e as vezes é até melhor assim. O mesmo não que liberta é o não que te coloca em crise, em dúvida, naquele conflitos em que você já não sabe mais o que fazer da vida. Fulano não quer nada sério com você: e como aquela criança do começo do texto você abre a boca chorar por ter ouvido o que não queria. Mas e a expectativa que vocês dariam certo, você tirou da onde?

De onde vem essa presunção de tudo tem que dar sempre certo para você?

Nossos problemas são frutos dessas negativas e cabe a nós ter discernimento para lidar com essas frustrações. Até me arrisco a dizer que falta um pouco mais de humildade na gestão desses teus conflitos. No final das contas, você não tem ideia de quantos problemas os “nãos” já te pouparam ao longo do caminho. Lembra daquela viagem que seu pai não te deixou ir? Dois dias depois recebemos a notícia que seu grupo de amigos tinha sido alvejado de balas em uma praça de Balneário Camboriú. E você morrendo de ódio do teu pai, dizendo que ele nunca fazia nada por você, que ele não tinha moral para mandar em você. Lembra quando você disse não para aquele cara e ele se revelou um homem violento? Lembra quando a empresa não quis continuar com você no corpo de funcionários, e isso te gerou tanto ódio que você quis cursar uma faculdade para trabalhar na área que gostasse e pudesse — quem sabe no futuro, montar sua própria empresa? E aquela séries de nãos disfarçados do cara que nunca te levaria à sério, e hoje você o vê como seu conhecido mais fracassado?

Pense quantas vezes o não foi libertador. O não, tão odiado e que você tenta evitar ao máximo, te livrou tantas vezes e abriu portas que o “sim” nunca conseguiria abrir. Aconselho que você continue amadurecendo esse pensamento menina, você ainda vai receber incontáveis “nãos” ao longo da vida — desde os mais simples: “Não autorizada”, como os mais enfáticos: “Eu não te amo mais”. O que muda nessas situações são seus filtros e como você vai lidar com essas coisas. Teu processo de crescimento e amadurecimento DEPENDE disso de uma maneira que você nem imagina. Você sabe que isso não quer dizer que você não vai questionar ou tentar reverter algumas situações, e é aí que mora o perigo. Sei que ainda temos um longo caminho pela frente até você conseguir o equilíbrio para essas situações.

Meu conselho por enquanto é que você continue refletindo sobre as suas reações e identifique em você qual seu grau de maturidade quando ouvir um “não” de alguém, por menor que seja. Isso vai te ajudar muito com seus próximos passos. Veja o que disse é sua responsabilidade e o que não é. Jogue fora o que está ocupando espaço de outras prioridades e não fique mais colocando as outras pessoas na sua frente, isso te faz muito mal e você sabe disso.

Para terminar, também pensamos sobre o quão enfática você deve ser quando tiver que dizer não. Medir a gravidade das situações vai te ajudar a temperar e você vai se sair cada dia melhor. E me lembra o não que eu mais gosto de te dizer: você não é fraca.

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