Falar sobre depressão é terapêutico

E me ajuda a ser mais branda comigo mesma.

Jéssica Barbosa
Sep 8, 2018 · 5 min read

Eu sei que realmente sou uma pessoa acima da média. De alguma forma, acredito que ainda vou fazer muitas coisas boas e relevantes. E eu acho que se não fosse a depressão eu não teria aprendido a falar bem comigo mesma.

Você já teve uma crise de ansiedade?

Infelizmente, hoje em dia isso é mais comum do que muitas pessoas pensam. Por ter depressão, eu sofria muito mais antes com pensamentos obsessivos e depreciativos sobre mim mesma. Quando estou numa crise, sinto que nunca mais vou sair disso, que minha vida acabou e que eu vou parar de trabalhar, largar tudo e ficar só deitada na cama.

Acho que a minha sorte é ter algo dentro de mim que quer sempre melhorar. E eu comecei a falar melhor comigo mesma. Eu li sobre auto conhecimento — sim, livros de “auto ajuda”, que muitas pessoas condenam, podem realmente ajudar pessoas que estão dispostas a se ajudar. E eu não desisto de mim porque eu estou começando a me achar realmente uma pessoa legal. Olhar pra mim no espelho e sorrir é vitória.

A parada é que eu descobri que posso escapar das crises mais rápido, com menos dano. Afirmações, falar em voz alta comigo mesma para parar de chorar, falar comigo como se estivesse falando com a minha melhor amiga, ou minha mãe (isso funciona PRA CARALHO para quem tem problema de auto estima e fica sendo muito rígida consigo mesma (o)). Então perceba, que eu ainda não deixei de ter as crises, e na verdade elas estão mais frequentes. Pode ser que em breve eu tome outro tipo de medicação. Isso é importante, e não sei como vai ser quando eu puder parar de tomar os remédios.

Seja como for, descobri em mim alguns truques que são bons para me ajudar a sair das crises. Ultimamente, tenho usado frases simples que eu gostaria de ouvir de uma pessoa naquele momento tão confuso, intenso e por vezes ainda vergonhoso para mim:

“-Calma, tudo bem. Vai ficar tudo bem. Eu sei que você está cansada, pode chorar. Tudo bem, não tem problema, já vai passar. Já vai passar. Eu tô aqui com você, vai ficar tudo bem.”

Pode parecer loucura, mas acredite, funciona pra mim. E ficar de bem comigo mesma tem sido muito importante. Hoje eu acho que estou começando a me ver sendo a pessoa que eu sempre quis ser, sem tentar imitar ninguém. Sendo eu mesmo e gostando de ser assim, sem tentar corrigir para entrar em qualquer padrão.

Graças a uma constante evolução, eu vou me descobrindo e aprendendo que para lidar com a depressão é preciso ter muita paciência. E é preciso cuidar de si mesma como se a sua melhor amiga estivesse doente, ou sua mãe, ou uma pessoa querida. Se cuidar com carinho, não ser tão duro consigo mesma. Não precisa disso. A vida já será suficientemente dura com você, e com suas limitações e crises.

Graças a esse pensamento estou aprendendo a ficar do meu lado.

Outro exercício que funcionou muito bem pra mim foi imaginar um documentário da minha vida, com todas as minhas conquistas e tudo que conquistei até hoje. Sinceramente, dá um orgulho. Eu vou pensando na narração enquanto faço coisas normais da rotina, como num filme mesmo. É super divertido e me faz sentir super poderosa.

Auto conhecimento é um caminho sem volta

E pra mim tem sido super bom. Se esses pensamentos fazem sentido para outras pessoas, tudo bem. Só tem sido o meu jeito de lidar com tudo na vida acompanhada da depressão. Entendi que se eu fizer as pazes comigo, aceitando minhas limitações, e ficando em paz comigo, as coisas podem fluir como a vida de qualquer outra pessoa…ou até melhor.

Um dia conversando com uma amiga, eu disse: “- cara, eu fico pensando as vezes…eu sou a única pessoa que sabe de toda a minha história, de tudo que já passei, de tudo que superei e aprendi, e das minhas limitações e do meu cansaço. Será que eu seria rude com uma pessoa com uma história/rotina como a minha?”

Certamente eu seria muito amável, e admiraria muito essa pessoa. E a partir desse pensamento eu comecei a realmente admirar tudo que conquistei até aqui, e curtir minhas conquistas. Saber que eu mereço e que trabalhei muito para chegar até aqui.

Das minhas feridas agora eu posso cuidar. E estou cada dia mais gostando de mim. Todo dia quando vou meditar, penso que esse é um tempo que dedico para “encontrar uma amiga” (eu mesma) e passar um tempo com ela, e perceber como “ela” (eu) está. Sabe? Como se fossem duas pessoas, o eu de fora prestando atenção no meu eu interior. No que estou pensando? Como estou me sentindo? Porque estou me sentindo assim?

Me auto conhecer fortalece a amizade que eu quero cultivar comigo mesma. E pra mim isso tem sido autoconhecimento e empoderamento. No trabalho, realmente fico impressionada com tudo que conquistei. A vida amorosa não poderia ser mais perfeita, porque encontrei a única pessoa possível no mundo capaz de me fazer tão bem. O meu encaixe perfeito nessa existência, eu realmente tive a sorte de encontrar. E estamos juntos e felizes e muito dispostos a ficar juntos para sempre.

Além dessas reflexões, também estou tentando me cuidar fisicamente, fazendo pilates duas vezes na semana. Me sinto especialmente grata por agora ter tempo e recurso para cuidar do meu corpo. Tem sido doloroso o processo, quase como uma fisioterapia, mas sei que em breve tudo isso vai valer a pena. Na verdade já tem sido mais tranquilo, vamos ver na semana que vem.

Agora também tenho um plano de saúde, e posso fazer tudo que precisar (bora pra tudo os médico menina). E terapia claro, que é um pilar fundamental para o meu equilíbrio e produtividade. Não sei o que seria de mim sem a minha psicoanalista.

O que eu quero dizer é que eu duvido muito eu ter toda essa evolução e auto cuidado se eu não fosse depressiva, entende? Entrei numa condição em que precisava me virar porque queria viver melhor, eu simplesmente não aceitei a minha condição e comecei a procurar ajuda. E graças às pessoas que estão me ajudando nessa fase.

O lado ruim é que eu penso que as pessoas não deveriam ter depressão para pensar em auto cuidado assim. Quando eu falo para as pessoas sobre meditação, yoga, pilates, e livros, e minhas reflexões — parece tão impressionante. Mas para mim é só um monte de confusão na minha cabeça e eu tentando entrar em acordo comigo mesma. Eu tentando ficar de bem comigo.

Posso confessar que na maior parte dos dias tem sido muito bom. Tenho outro truque contra a ansiedade que é pensar:

“- Essa é a minha realidade. A minha vida é exatamente o que está acontecendo agora. Não tenho nada a esperar. Nada vai acontecer. Não tenho que me preparar para nada.”

Loucura né. Eu também acho, mas sempre que eu penso isso me dá uma paz sabe. Conseguir ficar presente na realidade é algo que eu aprendo meditando e praticando sempre que eu lembro. Exercícios de atenção plena eu aprendi num livro.

E acho que no fim das contas, se eu perder tudo que eu conquistei, as circunstâncias me trouxeram pra dentro de mim mesma e eu já ganhei todas as batalhas até agora. E sigo vencendo.

Jéssica Barbosa

Written by

dedicada em si mesma. @jessicassauraa

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