Recaída, introspecção e opinião.

“Ando solto, sou folha num vento revolto. Só um entre um silêncio e outro. Sou só mais um na multidão sem rosto”

Ontem no caminho de volta pra casa pensei em um texto ótimo para escrever aqui mas já devo ter perdido 70% da ideia central do que eu realmente gostaria de dizer. Na verdade a minha vida está uma bagunça nas últimas três semanas e eu estou…calma. Não gostaria de falar mais uma vez sobre o novo tratamento para depressão e como sofri nos últimos dias com mal estar, enjoo, fraqueza, dor de cabeça, irritabilidade e mau humor extremo. Tudo isso está acontecendo ainda mas em menor intensidade com o passar dos dias. Sábado passado na terapia fui orientada à respeitar essa fase, que é um tempo de introspecção. De fato, tenho refletido muito nos últimos dias sobre o que é importante para mim. Quem são as pessoas que realmente valem a pena? Essa reflexão me fez excluir mais de 150 pessoas do Facebook, deixar de seguir umas 30 no Instagram e fazer uma limpa na minha vida social. Na realidade, esses números em redes sociais nunca disseram nada todo esse tempo. Nunca significaram algo verdadeiro. A quantidade de páginas que eu curtia também diminuiu significativamente e eu ainda tenho muita coisa para excluir. A depressão vêm sobre mim como um tsunami. Forte como você não pode imaginar, incontrolável, destruidora. Leva tudo, destrói tudo que eu havia construído. A água acalma e baixa, restam os destroços e dali eu vejo o que vale a pena construir novamente. Eu estou começando a enxergar a depressão como algo que me renova, porque de fato isso acontece. Revejo as minhas prioridades, deixo de olhar para as outras pessoas e situações fora da minha vida e começo a prestar atenção em mim. Reparei que não gosto de ver meu reflexo; reparei que o meu pai é uma pessoa que talvez nunca entenda o que eu passo e como nossa relação se torna cada dia mais superficial. Nesses dias também aprendi que independente da quantidade de coisas que eu tenha pra fazer, o dia vai continuar tendo 24 horas. Parei de tomar remédio pra ser mais produtiva, estou começando a me convencer que largar o cigarro é uma boa pedida. Minha vida acadêmica está largada às moscas, faltei a semana passada inteira e nem sei o que tem pra entregar, que dia. Pensei nos meus relacionamento e nos caras que não falam comigo quando eu não vou falar com eles. Me convenci que não preciso ficar chamando a atenção de ninguém, porque no final das contas eu não quero essa atenção. Eu pretendo continuar mais um bom tempo sozinha, não sei quanto tempo…semanas, meses, anos. Quero me livrar de relacionamentos tóxicos, efêmeros, vazios, desgastantes. Continuo focada na minha carreira, mas de uma maneira mais branda, entendendo que sou um ser humano, que eu vou falhar muitas vezes na vida e que empresas são só empresas. Ainda assim, me sinto cada dia mais orgulhosa das coisas que produzo. Tenho produzido conteúdos ricos em um ótimo tempo, priorizando tarefas e gerindo as atividades como nunca antes. Com calma. Peguei no Spotify uma série de músicas que não ouvia a muitos anos, tipos os raps de 2007 que eu curtia pra caramba e não lembrava mais de ouvir. No último domingo fui consumida por um ódio enorme por ter que limpar minha casa inteira sozinha enquanto meu pai via TV. A casa onde moramos tem 8 cômodos, desses dois são banheiros e eu tive um trabalho do caralho pra colocar tudo em ordem. Fora garagem e roupa pra lavar. Fiquei muito puta por não ser ajudada. Me lembro que em algum momento desse dia caótico eu pensei que essa era uma situação que eu deveria encarar de boa, porque no final das contas logo eu saio da casa do meu pai e vou ter que fazer tudo sozinha de qualquer maneira. Ainda me surpreendo em ficar tão irada quando não posso contar com meu pai, talvez eu ainda não tenha entendido qual é a função dele na minha vida. Voltando. O assunto de ontem no caminho de volta pra casa era mais sobre uma vontade que eu tive subitamente de me alienar de tudo que tem acontecido. Eu abro o Facebook e só vejo sofrimento, notícias ruins envolvendo pessoas ruins. Discussões, falatórios sem fim, textão pra ver quem falar mais palavras difíceis. Realmente quero me desfazer de cair nessa de que preciso me engajar nesses assuntos para entender mais sobre o mundo. Já formei minha opinião sobre várias coisas e tenho perdido a vontade de compartilhar isso com as outras pessoas. Lembro também de ter pensado algo do tipo “quanto mais a pessoa duvida de sua própria opinião, mais ela quer enfiar isso na cabeça dos outros”. Quem sabe no que acredita está em paz. Não fica querendo enfiar na cabeça dos outros o que acha sobre isso ou aquilo, ou no que acredita. Isso é papel de gente que precisa se afirmar. Precisa que as outras pessoas concordem com o que ele pensa. Eu, sinceramente, dispenso. Prefiro duvidar de mim mesma nos meus devaneios e refletir sobre as coisas que vejo. As notícias recentes sobre política, feminismo, economia e mercado tem piorado com o passar dos dias. Os comentários que leio em cada publicação tem piorado a cada dia. As pessoas usam a informação para vomitar na cara dos outros o que pensam e isso é inútil. Prefiro pensar sobre as coisas que leio e tentar aprender algo bom com isso. Prefiro garantir que nunca daria meu voto pra caras do clubinho Bolsonaro; quero me informar sobre feminismo para me questionar sobre os relacionamentos que posso me sujeitar, sobre as coisas que ouço, sobre a opressão do dia-a-dia. A internet está cheia de respostas, teorias e explicações sobre tudo que podemos imaginar. Mas do que adianta eu ler sobre manterrupting e saber o que é, se eu não faço a menor ideia de como fazer com que os homens parem de me interromper quando eu falo? Essa informação serviu pra quê afinal de contas? Pra que eu fique com raiva e aponte pro opressor, e grite na cara dele que o que ele está fazendo é errado? É muito provável que o cara em questão nem entenda o que eu quis dizer, e me interrompa novamente dizendo que eu tô loca. Entende o que eu quero dizer? Quando eu falo sobre me alienar, eu quero abrir mão do meu direito de gritar minha opinião por aí, de discussões sem começo ou fim. A gente acha que sabe de tanta coisa, pensamos ser tão politizados e engajados com o que acontece no Brasil, mas a mídia rifou nossa opinião e nos fez brigar com pessoas que amamos que pensam diferente de nós. Aliás, não foi por falta de aviso que a situação do país ia piorar, mas eu achei muita ignorância o discurso do “-parabéns, conseguiram afastar a presidente”. Nem eu, nem você temos poder algum sobre o que acontece no âmbito político do Brasil. Você aceitando isso ou não, o povo não apita nada, nunca apitou. Quem decide isso são pessoas que não aparecem na televisão e nem em nenhum tipo de mídia independente. Comoção social engana a população. A gente diz que a internet nos deu voz, nos deu sites de abaixo assinado, vídeos, textão e tudo que possa imaginar para expressar nossa indignação e isso é fato. O que eu duvido muito que aconteça é isso influenciar alguma coisa nas decisões desses caras. Muita gente envolvida e gente de bigode grosso, não esses caras que o Moro tá indo atrás. Essa galera é a ponta do iceberg, o típico cara que caiu de laranja. E a gente achando que manifestação resolve problema. O povo não decide nada pelo simples fato do povo não ser interessante o suficiente pra manter esses caras onde eles estão hoje. A internet fez de nós pessoas que falam mais, como exemplo esse texto enorme que eu nunca escrevia no meu caderninho. Não há sentido em criticar a internet por que isso é um monte de zero e um. Se sua vida social ou feed de notícias do Facebook tá caótico, a culpa é sua. Eu decidi escolher pessoas, escolher conteúdos e escolher guardar pra mim coisas que possam me tornar um ser humano melhor. Se meu jeito de pensar me leva a ter atitudes mais humanas, eu entendo que devo ser humana o suficiente para respeitar o que é do outro ou simplesmente não me importar. Se você quer passar o dia todo desesperado, aflito, com ódio na ponta dos dedos a internet é um prato cheio, sirva-se a vontade o quanto aguentar. Sinceramente, minha cabeça já é fudida o suficiente pra eu ficar ocupando com mais esse monte de merda que tá acontecendo. E é por isso que a depressão faz o que faz comigo, por que é uma doença capaz de me fazer alguém melhor, me lapidar. Graças a Deus já estou melhor, a medicação ainda causa mal estar e vai levar uns 10 dias até tudo voltar ao normal. Mas já me sinto bem o suficiente para escrever sobre tudo isso e muito mais; meço meu interesse pela vida pelo quanto consigo falar sobre as coisas que eu sinto. Quando não externalizo, sei que estou morta. Foram vários dias assim e ainda respiro com a ajuda de aparelhos. E ainda ouço os “tá melhor?”. No final das contas sei que essas coisas não devem interessar tanto para os outros quanto são vitais pra mim. Eu desejo que esse período seja ainda mais produtivo e que muitas outras coisas floresçam. Sei que vou passar por isso inevitavelmente, mas quero usar essas recaídas para dar mais um passo rumo à amizade comigo mesma.

Obrigada se você leu até aqui. Espero que essas reflexões pessoais acrescentem algo à você.

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