Procurei por vestígios no Google Street View

Abri o Google Street View para percorrer virtualmente os quarteirões ao redor da sua casa, ato com o qual lutei contra por meses. Dei um trago só, longo, prendi, soltei e abri mais uma aba do Chrome. Uma primeira, última e única sessão de autotortura.
Me lembrei o nome da sua rua, mas não o número. Eu nunca me lembrava do número. Toda vez que precisava te perguntar, sabia que depois da resposta você teceria um comentário desaforado por eu não memorizar essa informação — você sempre fez isso e eu não tinha como argumentar, já que por muito menos eu me indignava com você também. Na dúvida, procurei na barra de pesquisa o nome do bar que funcionava exatamente embaixo de onde você mora. Se isso fosse um filme, close na digitação, no enter pressionado com vigor, no resultado da pesquisa aparecendo rápido.
Engraçado, quando o carro do Google capturou sua esquina, não atualizou todas as direções que podem ser tomadas. Se vou pela esquerda, como quando esperava você destrancar o portão para entrarmos com as bicicletas, a captura data setembro de 2015: as janelas estão fechadas, não há toalhas penduradas nos fundos. Na janela, a faixa com ALUGA pintada de vermelho com o telefone do proprietário que você julgava oportunista. Suas coisas ainda não estavam lá e nós não nos relacionávamos. Na época eu não havia passado por ali, mesmo morando na cidade há 23 anos.
Se vou pela direita, como quando tomávamos café da manhã em casa e precisávamos descer ali para comprar pão e outras coisas na Silviano Brandão, a captura é de setembro de 2017: todas as janelas estão abertas, sinal de que eu estava lá. Você não fazia questão de escancarar todos os vidros. Casal sempre tem um calorento e no nosso caso era eu. Nos fins de semana, se dormíamos na sala e você levantava antes, eu gritava ‘amor, abre as janelas? TODAS ELAS?’ e você atendia. De cara boa, ou de cara feia, mas atendia; a toalha azul está pendurada nos fundos. Era a minha preferida entre as suas toalhas, então o último banho antes do carro do Google passar tinha sido o meu. Ou nosso, e você havia usado a “minha” toalha por ter esquecido a sua e ficado com preguiça de buscar. Você ainda não havia decidido decorar a janela da frente com os vasinhos de plantas menores. Por sorte não fomos registrados transando no sofá que dava para a janela do meio. A fresta perfeita para aquela mulher da casa com ladrilhos, com aquela calma toda, nos espionar. Em um dos nossos flagrantes, ela observava nosso sexo matinal. Ao ser apanhada, o rosto dela não se moveu um milímetro sequer. Acho que ela gostava de assistir.
Em comum nos dois registros, apenas a pintura externa da casa, sem muitos danos no período de dois anos. Porém, as paredes são de um verde preguiçoso, como quem só pingou Xadrez verde na tinta branca. Oportunista mesmo o proprietário.
