anunciação

Era manhã de domingo quando Simão me convidou para pescar. O vilarejo onde vivia era muito simples. Casas feitas de tijolo batido e telhas gastas pela maresia. Os batentes das portas e janelas traziam a graça: coloridos, refletiam a personalidade de cada nativo.
Eu estava só de passagem. Estava de passagem, fugindo, na verdade. Estrangeiro — mas eu preferia dizer que estava no meu período sabático, como fazem por aí. Fui acolhido, mas não pertencia àquele lugar.
Soprava a brisa suave, daquelas que antecedem o despertar de um Sol forte. Me espreguicei e fui caminhar na orla — repetindo o mesmo ritual de todas as manhãs desde que cheguei a Praia da Anunciação. Geralmente, andava de uma ponta à outra, inconformado com o mundo e tentando encontrar algum resquício de sentido na vida ou alguma epifania que esclarecesse tudo . Notei, porém, que todas as vezes que passei em frente ao barraco mais simples da praia ele estava vazio. Isso realmente me deixava intrigado.
Quando terminei minha caminhada, aceitei o convite de Simão e entrei em seu barco. Depois de alguns minutos navegando, chegamos na zona onde todos os pescadores do vilarejo costumavam ficar. Estava vazio. Perguntei por que não havia nenhum barco além do nosso. Ele me disse que o mar não estava para peixe, mas que ia lançar as redes mesmo assim porque era isso o que deveria fazer. Achei tolice mas, como eu ia embora no dia seguinte, aquela parecia ser a melhor oportunidade que eu teria para descobrir a história por trás daquele barraco vazio. Então, topei ajudar.
Quando finalizamos os preparativos e lançamos as redes, ele se sentou e ficou observando em silêncio — o que me deixou um pouco nervoso, admito. Alguns minutos se passaram assim, então, ele levantou as mãos para o céu e deu graças. Não entendi muito bem o porquê de tudo isso, mas achei melhor nem perguntar.
Simão me contou que quem morava lá era João — um cara meio temperamental e esquisito. As pessoas o tachavam de louco. Também, pudera! Ele passava as manhãs recolhendo o lixo que os turistas deixavam na praia para deixá-la limpa. Parava para almoçar alguns insetos — que misturava com um pouco de mel silvestre. Durante a tarde ele ficava no espaço comum da comunidade conversando com as pessoas. Falava como um amigo íntimo fala quando está preocupado: “Você precisa mudar de vida! Estou esperando a visita de um cara. Ele é filho de carpinteiro, super humilde e simples. Está vindo de burro pra cá. Enfim, quando você o encontrar, tudo se fará novo! A bruma vai cessar e você verá claramente. Amanhã vou continuar preparando o caminho para quando ele chegar. Quer vir comigo?”. Depois dessa maratona de conversas, às 16h, pontualmente, ele entrava na pequena igreja, tocava o sino doze vezes e voltava para casa. João, o batista.
Durante um tempo, logo após ouvir seus anúncios, muitas pessoas realmente se autoavaliavam e arrependiam do modo como estavam vivendo. Então, ele as levava para um mergulho na água do mar — simbolizando essa metanoia. Contudo, não muitas luas depois, João começou a perceber algo estranho: era muita gente que já chegava na vila procurando por ele. Mais tarde, descobriu que começaram a vender a Praia da Anunciação como um ponto turístico em uma companhia de viagens. O mergulho guiado por João era o principal passeio do pacote, ainda mais porque a festa de réveillon se aproximava. As pessoas ficavam desesperadas por um renovo. Aí era fácil: “Por apenas dez parcelas de $99, você fará uma imersão nas águas milagrosas do oceano (sob a supervisão de um curandeiro e guru espiritual formado em turismo) e sua vida será transformada. Insetos e mel silvestre não estão inclusos na diária do passeio. A alimentação ficará por conta do contratante”.
João ficou p#to da vida. Saiu chutando todas as placas de propaganda que via pela frente e gritou com todos os envolvidos na maracutaia: “Raça de víboras! O que vocês pretendem com isso? Acham que um pouco de água vai lavar fora essa sujeira toda? Acham que vai fazer alguma diferença? É a vida de vocês que precisa mudar, não a superfície. Vocês anunciam em nome do deus-mercado. O que eu faço aqui não é em meu nome, mas sim em nome de um filho de carpinteiro”.
Os conselheiros da vila tentaram apartar a briga, mas nada parecia detê-lo — era mais fácil acostumar. Afinal, ele era um João-ninguém. E se morasse em cidade grande, com certeza, seria diagnosticado como um ansioso com síndrome de burnout.
Prestei atenção em cada detalhe da história mas, confesso, achei aquilo tudo bem improvável. Acho que ele percebeu minha inquietação, porque logo em seguida, indagou:
- O que foi? Você está com uma cara esquisita.
- Ora, Simão! Isso é história de pescador. — respondi sem titubear.
Ele riu.
- Tomé, Tomé… Bem que me avisaram que você é da cidade grande. Cético até dizer chega. Posso te dar um conselho? Pare de duvidar de tudo. Tenha fé, homem! As pessoas mais felizes são aquelas que não precisam ver para crer.
- Seja sincero: você realmente acredita que esse cara vai chegar? E que, se ele vier, vai conseguir mudar alguma coisa? Pra mim, João é só mais um louco, que prefere acreditar nisso ao invés de encarar a realidade. E você está indo pelo mesmo caminho! Essa praia virou ponto turístico, Simão. E se vocês não começarem a enxergar isso como uma coisa boa, vão passar fome. Você mesmo disse que o mar não está para peixe. E você ainda agradece antes de lançar as redes. De verdade, Simão. Você parece um hippie. Aceite meu conselho de cidade grande: não pense em crise. Trabalhe!
Ele realmente parecia ser a reencarnação da era “paz e amor”, porque pareceu não se abalar com nada do que eu disse. Ao invés disso, apenas fez um sinal pedindo ajuda para puxar as redes de volta. Que cara irritante!
- Sabe, Tomé, ele chegou ontem a noite. Você devia estar dormindo, por isso não soube das boas novas. Estou aqui porque ele me disse para lançar as redes mais uma vez. Venha, me ajude! Está pesado.
Puxamos as redes de volta para o barco. Elas estavam cheias de peixe! Virei para Simão, ainda confuso com o que estava acontecendo. “João disse que ele quer nos conhecer”, avisou.
Quando atracamos na Praia da Anunciação, ouvi os sinos tocarem. Avistei João saindo da capela — mas ele não estava só. Estava acompanhado por um cara que eu nunca tinha visto. Ele se aproximou e fez um convite:
- Venham comigo! Vou fazer de vocês um novo tipo de pescadores. Vou mostrar como pescar pessoas em vez de peixes.
Surgiu em mim um sorriso. O clássico de Alceu Valença passou a ecoar na minha cabeça: “Tu vens, Tu vens… eu já escuto os Teus sinais!”. Então, eu larguei minhas redes e o segui. MAR-ANATA!
Acredito na escrita como uma ferramenta poderosa de transformação e libertação. Além disso, este é o meu trabalho!
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