escrever é um parto.

Eu sofro muito durante o processo criativo. Sempre sofri. Talvez pelo perfeccionismo, por só me arriscar a escrever (por prazer) quando tenho certeza de que a minha ideia é boa — e, muitas vezes, desisto no meio porque chego à conclusão de que ela nem era tão boa assim. Sem falar quando termino um texto, leio, releio e acho tudo uma — bela e gigante — porcaria.

Muita gente acha que escrever é cool. É fácil. Acha que escrever não dói, não estressa, não dá paranoia. Resolvi falar sobre isso para provar o contrário: escrever não é sobre ser bonitinho. É exatamente o contrário.

Geralmente, funciona assim: eu tenho uma ideia, que, na maioria das vezes vira título. Depois de pensar muito (muito mesmo) se vale a pena desenvolver, aprofundar e me dedicar àquela frase inicial eu começo a ter contrações. Enquanto isso, minha cabeça se perde em um coral de vozes que gritam:

- “Credo, quanta prepotência da sua parte. Seus textos são muito ruins!”
- “Você realmente acha que num mundo com Chico Buarque, Duvivier, Jorge Amado e tantos outros alguém vai parar pra te ler?”
- “Sério… Ninguém vai se identificar com isso. Nem vale a pena continuar.”

E então, nesse mar de pensamentos negativos, surge uma vozinha tímida — porém firme — que me lembra: “Continua, meu bem. Quando terminar você vai se sentir melhor. Sabe por quê? Escrever é um parto. É como estar muito tempo debaixo d’água e ter a urgência de chegar à superfície para, finalmente, poder respirar. É tirar de você tudo o que pesa e te faz mal. É emprestar para os outros o que te faz bem. É se experimentar em um nível de intimidade que poucas pessoas terão oportunidade de te conhecer”.

AHHHHHHHHH. Mais contrações.
Elas doem. 
Escrevo para tirar meu foco delas. 
Escrevo,
escrevo, 
escrevo.

Às vezes elas demoram minutos, às vezes horas.
Outras se estendem por dias, que por vezes viram meses.
Até que não tem mais como segurar dentro de mim. 
Até que nasce. E tá aí, no mundo. 
Mesmo que ninguém se identifique — o que eu realmente acho difícil — é de todos. É de Chico Buarque, de Duvivier, de Jorge Amado e de tantos outros. É, inclusive, principalmente e especialmente meu.
 
Escrever é um parto.
Bem-vindo ao mundo, filho!

*Só pra ilustrar, inclusive, comecei a escrever isso aqui em abril. Estamos em agosto.
*Até agora, depois de publicado, já mudei quatro palavras de lugar. 
Pode ser que esse número aumente.

[12 de agosto de 2016]