Fragile

Como eu queria ter a autoestima de uma galera por aí.

Meninas empoderadas, que amam seus corpos, que amam ser quem elas são. Elas mesmas. Decididas, cabeça aberta e que tocam o foda-se. Eu acho lindo essa forma de viver. Se amar e ser livre.

Eu queria ser assim, mas não sou. Admiro o amor próprio e almejo sentir isso pelo menos uma vez na vida. Não que eu me odeie por completo, mas sempre tem aqueles dias de bosta. Que tu acorda e acha que teu cabelo tá uma merda; quando tu olha pro espelho e acha que engordou uns 10 quilos e por aí vai. Aquela mania de achar que todo mundo é melhor ou mais bonito que eu. E aí tudo volta pra estaca zero.

Sentir isso frequentemente cansa. Qual será o segredo dessas minas? Eu leio tanto blog feminista, sigo tanta mina foda desse meio e mesmo assim eu não aprendi a me amar. E eu me odeio por isso! Por não me aceitar, por me odiar cada dia mais. Eu tento, juro que tento. Mas quando a gente já passou por tanta merda na vida, a gente meio que perde o interesse.

Aos quatorze anos eu dividia as roupas com a minha mãe. Ela usava calça 42/44. Eu estava na quarta série e meu apelido era fofão. Acredito porque eu sempre fui bochechuda e grandalhona. Minha família também me dava alguns apelidos e eu sempre fui um alvo fácil de piadas. Nas festas de família eu era a gorda que comia tudo pela frente. Era comparada com a minha tia, que sempre foi muito magra. Essas comparações me matavam e me diminuíam cada vez mais. Eu chorava de raiva. Sozinha. Eu não aprendi a me amar. Eu aprendi a me odiar com o tempo. Fiz exatamente o caminho inverso. Me fizeram acreditar que eu era nada e eu caí nessa.

Aos quinze anos eu tive problemas com alimentação. Não comia e quando comia, vomitava. Emagreci bastante e desenvolvi uma depressão por conta de vários outros problemas de família. Se ninguém gostava de mim, por que diabos eu iria gostar? Com o tempo fui perdendo isso e comecei a tocar o foda-se. Sozinha? Não. Comecei a beber, usei algumas drogas e também me segurei à música. David Bowie, Led Zeppelin, Pitty, Pearl Jam e por aí vai. Com isso passei a ignorar todas essas coisas e, bem ou mal, funcionou de alguma forma. Hoje sou muito mais cabeça feita do que eu era antes. Não me abalo por pouco. Mas a sementinha tá lá no fundo e tem dias que fica difícil ignorar. Cá estou eu, com 25 anos na cara, voltando à estaca zero mais uma vez. Me reerguendo a cada dia, aprendendo a me redescobrir a cada caída.

Meu maior medo é ficar nesse looping infinito e no final perceber que eles estavam certos. Me deixar vencer e me tornar apenas mais uma nesse mundão. Me tornar uma qualquer, sem luz, sem nada. Isso é realmente uma bosta. Afeta meus relacionamentos porque na minha cabeça qualquer pessoa pode tomar o meu lugar. Mesmo quando me dizem que sou linda e que tudo isso é bobagem, eu acho que estão mentindo ou falando só pra me agradar. Enquanto eu me achar uma merda, não importa o que digam de positivo sobre mim. Eu absorvi tanto as coisas ruins que elas acabaram se tornando verdades pra mim. Chega a ser engraçado se não fosse trágico.

Talvez um dia eu consiga entender que viver para os outros é a maior besteira. Talvez eu consiga reverter tudo isso. Acho que ainda não é tarde demais pra (re)descobrir o meu amor próprio. Quero ser eu, quero me gostar, quero me querer. Mais forte, mais livre, mais feliz.

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