A solidão da mulher forte.

O ser mulher é uma teia infindável de pautas. Sim, é tudo isso mesmo. Da beleza, idiossincrasias, minúcias, complexidades. É crônica, é poesia, é música, dissertações e teses. Não me refiro à romantização tola do ser feminino de compositores abobados com idealizações vendidas em fórmulas prontas do que deveríamos ser e sim do que fatos somos.

É preciso distinguir o que somos das imagens que tentam a muito custo nos aprisionar. Aos apoiadores do odioso argumento do mimimi, explico que historicamente fomos subalternas em diversos momentos e que o movimento de construção social está diretamente ligado à história que tende a progredir de forma lenta. Algumas feridas não cicatrizam ao assinar de uma lei que nos deu direito à voto ou qualquer outro fato histórico de emancipação. Se as mudanças sociais se dessem de forma tão simplista e dependessem unicamente de igualdade formal, as desigualdades e as monstruosidades dela derivadas seriam um fato finito, datado a acabar.

Daí emergem os movimentos sociais na contramão do status quo indicando que há mais a ser dito dentro que está posto. E quando não são os movimentos que gritam? Quando a uma única mulher dentro da sua realidade, que ao contrário de seu contexto, emerge se libertando do que a aprisionava?! E quando esta mulher, na verdade, são várias, são pontos de luzes ao redor mundo formando uma emaranhado invisível de força, poder e beleza. Tenho uma visão quase mágica de que ao longo da história, dos anos e da vida de cada uma, muitas foram as pedras que nos atiraram e a força com que resistimos foi uma lição para a humanidade. Em meu convívio e fora dele conheço inúmeras mulheres fortes, cada uma com suas peculiaridades e traços únicos.

Para além da exaltação e do fato de ser a mulher uma amazona nata, existe o fato de quão forte nos forjamos, nos construímos, nos colocamos e quão solitário isso pode ser. O esteio: da casa, da vida de companheiros/as, amigos, dos filhos, dos papéis tradicionais que nos encaixam, dos que abraçamos de prontidão, dos que rejeitamos e ainda assim permanecemos. Esteio de quem nos ama, de quem nos rejeita, de quem nos machuca, de quem nos fere, de quem nos abraça e nos dilacera a alma com palavras, ações, violências, de quem nos oferta pequenos atos de amor e de quem nos silencia e nos mata lentamente.

Abro parênteses para esclarecer que minha narrativa não compreende banalização de sofrimento e jamais a romantização do mesmo. A força construída pela mulher é fruto de longo processo de silenciamento histórico, repassado de geração em geração e sobrevivemos de tal forma, com tal força que ainda não temos idéia da dimensão deste poder. Esta força é solitária porque numa sociedade machista, misógina em que as relações de poder e autoridade são o imperativo de dominação entre diferentes grupos e se infiltram em relações menores ainda, como: família, casamentos, namoros e demais variações de união, é extremamente complexo crescer na dor, tornar-se forte e como se não bastasse atender anseios da sociedade.

É doloroso levar o mundo nas costas e aí cabem inúmeras variações de mundo: atravessar a cidade todos os dias, dedicando 1/4 do tempo a estar em transportes morosos para empregar a força de trabalho a pequenos e grandes monstros produzidos pelo capitalismo e retalhar a alma e o tempo em sustento, dedicação a filhos, sobrinhos, netos, irmãos e agregados, ao mesmo tempo que cumpre papel de esposa; ou ainda dedicar-se de forma exaustiva a um trabalho em que sua voz não é respeitada por nenhum motivo aparente; tomar caminhos opostos e fazer escolhas próprias e vê-las jogadas ao nada porque não cabem no papel que deveria ser supostamente ocupado, perder tempo ou diminuir-se para caber em relacionamentos vazios com pessoas (leia-se homens) infinitamente inferiores pelo medo da solidão. E tantos outros cenários em que aprendemos a ser forte, a ser a pessoa mais forte, mais dedicada, mais segura da relação ao mesmo tempo que não podemos exercer esta força porque esse lugar não nos cabe. A sociedade vende nossa imagem de fragilizadas enquanto o roteiro da vida urge potência e força.

Parem de nos cobrar o cabimento em tantos papéis, parem de romantizar nossa força que é tão incrivelmente custosa, parem de nos cobrar esteio ao passo ainda precisamos aparentar. Nos já nos libertamos porque somos sim donas de si e estamos aguardando ansiosamente que joguem fora as correntes que não nos cabem mais.

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