E aí?

Começa às seis da manhã, aquele barulho insuportável do despertador. Que falta de respeito do capitalismo. O corpo ainda não emergiu dos braços de Hipnos e a vida está lá, tal qual uma velha chata, cheia de ranho, batendo porta e buzinando urgências.

Levanta para o momento místico do dia, respira o café, lentamente dá o start do dia. Lista de anotações mentais, check lists. Sai de casa, perde o ônibus. Motorista filho da puta, tenho certeza que me viu. O primeiro nó nas costas sobe. Pega o próximo, afunda na cadeira. Ignora o barulho, entra no quarto das músicas e fica ali.

Chega. Abre processo, fecha processo, abre sistema, fecha sistema. Atende o telefone, abre email, responde email. Esqueci aquele prazo, sobe escada, desce escada. Toma café. Faz anotação. Uma sensação de fracasso anda colada no pescoço, um incômodo de dor nas costas bastardo.

9 mensagens de 4 conversas. Desliza o dedo, grava áudio. Guarda a melhor mensagem para o final. Se o “e aí” for despretensioso, revira os olhos. Se duas mensagens consolidam ação, abre o sorriso. O dia se reconfigura, o final dele tem um get lucky sensacional.

— Que horas você sai? Te busco aí.

Se o mundo do trabalho soubesse como a promessa de uma foda muda a produtividade, investiriam no get laid dos empregados.

Solta a risada gostosa, ninguém entende. Coloca o fone no ouvido e põe os dedos frenéticos a produzir. Expediente finda.

— Posso ir? Chego em 15 minutos.

Arruma a cara, arruma a bolsa, faz as ligações necessárias pra que ninguém chame pelas próximas horas. Alguém para na escada, imprime mais entusiasmo ao diálogo que o normal. Desce rápido. Outro alguém chama pra uma cerveja, manda o hoje não dá. Apressa o passo. Derruba as preliminares introdutórias dos diálogos iniciais. “O dia, como foi o dia?!”. Quero afogar o dia num beijo desesperado. Foda-se o dia. O dia inteiro existiu para que este encontro fosse promovido. Os astros desenharam o encaixe animalesco previsto para dali a poucos minutos.

O beijo é quente, o toque molhado é um encostar de leva na alma. Respira fundo, respira mais. Amolece a coluna, relaxa os ombros. Puxa pra perto. Arfa o peito. Aquele limiar gostoso entre devorar com rapidez e introduzir devagar. Passa a mão na nuca, segura o rosto. É agora. Sente a ponta dos dedos abrindo alas nas roupas que precisam tão desesperadamente sair dali. O sorriso de ver o desnudo. Os bons apreciadores sorrirão como se fosse a primeira vez sempre, de ver o conjunto de carne, cor, sabor e curvas expostas. É o prefácio atrasado de tocar as mãos e esquentar o corpo que será introduzido. Pede saliva, pede puxão, aperta mais, ainda não tá perto. Segura preliminar com desespero, até causar torção. Faz um arco do corpo, da necessidade de completude. Não é querer, é precisar. Precisa consumar. Precisa encaixar. Os experientes saberão diminuir o ritmo para causar ânsia, a literal latência, sensível a qualquer passagem, entrará em desespero até amenizar o ritmo à constância do prazer. Quebra a dança, muda posição, se exibe, perde o fôlego. Acha a acomodação perfeita. É aqui. Grita, xinga, olha no olho, olha mais. Puxa lençol, puxa cabelo. E aí. Mete 150 afirmativas, de indicação de lugar: aí, aí, aí, seguido de gemidos quase sibilares. Explode. Uma acrobacia em gozo, faz do corpo um arco. Segura, senão quebra.

Ri, o riso dos aliviados, dos que se ligaram pelos corpos. Bebe água, checa celular. Troca piada de quem sabe que foi sensacional.

— Tá com fome? Eu tô.

Ri de novo, agora todo papo é válido e fluente. A língua mais íntima já foi falada, temos um dialeto a partir de agora.

— Boa noite. Foi demais.