Eu gosto dos que ardem
Gente gostosa é minha paixão, minha grande paixão. Gente que te liga por motivo nenhum no meio de um dia chato, dizendo que releva determinado traço da sua personalidade simplesmente porque acha lindo. Gosto de gente que arranca sorrisos da sua cara carrancuda ou torna irrelevante o motivo das suas tensões nas costas. Gente que gosta do sublime e revigorante café forte.
Que te faz salivar, que se lambuza sem medo, que imerge no corpo do outro, que faz do instante de desejo um quadro memorável, que transpira tesão, que se comunica com os olhos, que te devora ao beijar. Gente que faz do agora um instante efêmero mais bonito e intenso.
Gente que fura bloqueios com o garbo dos amantes, que joga as cartas na mesa, que não faz meia volta com honestidade. Gente que dá gosto de despir. A alma, a roupa, o corpo. Gente que faz do peito um lugar de afago, do calor a comunicação. Gente que tem sabor no toque.
Gente que manda o foda-se para os limites pós-modernos de abandono e desapego, que se empresta ao romantismo antigo e o veste com as roupas da coletânea de áudios longos no whatsapp. Gente que não espera limites ridículos de tempo para dizer que sente saudades. Que chama de “amor, meu bem” porque naquele instante você o é. Gente que põe o pé na porta dos medos e te toma pra si, te pega no braços e reclama propriedade para o desejo, carinho e tesão. “Tudo junto ao mesmo tempo e agora”, lambuzados e mergulhados na delícia de descobrir o outro.
Eu gosto de gente que quebra tabu, que não tem vergonha de se mostrar, que ri das falhas, que gargalha na sua cara, que te arranca sorrisos bobos, suspiros. Gente que não se importa com a hora, com o tempo, com contextos e formas rígidas de amor, gente que te faz se sentir querido e abraçado, que enxerga sua alma. Gente que elogia cheiros e sabores, que tem a presença enérgica ao mesmo tempo em que emprega a leveza de uma bailarina pra vida.
Gosto de gente que reacende paixões, que te relembra porque é bom se encantar e se perder. Gente que grita que te quer, que não se acua facilmente. Que aparece do nada pra visitar: “dane-se que é tarde, tô indo aí agora”. Eu gosto de gente que faz perder horas na conversa, que costura teia de assuntos com tesão intelectual e depois ri de piada idiota. Gente que cola na sua energia. Que te deixa suado, sem voz, sem jeito, descompassado, que te tira do sério, gente que entende que “puta que pariu” é a máxima expressão para o momento.
Gente que entende Vinicius e se permite curtir Safadão, que discute assuntos sociais sérios e perde tempo dando like em meme da carreta furacão, gente que não é uma coisa só e carrega o mundo no peito. Eu gosto de gente que não preciso explicar nada porque o subentendido, algumas vezes é mais interessante. Gente que não tenta aparentar e só é.
Gente que entende o amor pelos livros, que sabe estar entre seus silêncios, que tem como máxima o compreender, que se coloca, que preenche o quarto, a cama e vai se acomodando entre a escrita de suas melhores memórias.
Gente que tem tesão pela vida.
É, eu gosto de gente gostosa.