Sobre perdão e Tomb Raider

Uma vez inventei de jogar videogame. Sim, até eu Brutus.

Porque digo até eu? Porque quem me conhece, bem sabe que não tenho muita paciência para jogos de todos os tipos, a não ser os de tabuleiro. Aliás, se o jogo não for War, pois para esse também não tenho paciência. Absolutamente nada contra, somente não tenho habilidades, e por conseguinte, paciência.

Paciência é algo que falta em todo e qualquer aspecto da minha vida. Até pra amarrar meus tênis, o laço que dou é o mais rápido, sem historinhas de coelho ao redor da toca. Esse texto? Publiquei com o mínimo possível de revisão, e se eu tivesse confiança na minha sintaxe, publicaria sem nem olhar direito para o teclado.

Embora minha edacidade pelo correr do tempo tenha diminuído após minha conversão, de fato. Aquele anseio pra que o dia passe logo, aquela impaciência perante o tempo em si, Jesus tirou de mim. Até sachê de ketchup ando abrindo sozinha, quem me viu, quem me vê.

Tenho pra mim que de todos os meios de entretenimento, os jogos são os mais completos, utilizando de toda atenção momentânea, força de vontade, tempo e paciência. Às vezes até uma dieta rola sem querer, pela distração completa em que se encontra um indivíduo no momento em que joga, a ponto de esquecer uma necessidade básica como comer (essa parte de fato não consigo compreender). Tal coisa não tenho capacidade de prover, minha mente funciona mais ou menos como uma firma de tele-marketing, tratando vários assuntos simultaneamente embora quase todos sejam dispensáveis e vão custar alguma coisa a alguém.

Esses dias eu estava lendo 1 João em looping, por uma ordem divina e também da minha discipuladora. Leitura com o propósito básico de tentar fazer entrar na minha cabeça que preciso amar o meu próximo. Minha vontade é olhar a quem não gosto e chamar “próximo!” e a esse sim, amar tranquilamente, até que ele venha com patifaria pra cima de mim (chorei com essa piada infame). Contudo, o negócio é amar quem está perto mesmo, com ou sem a patifaria. Ou seja, amar quem eu não quero amar. Confesso aqui meu pecado, por favor perdoe meu grande potencial escandalizatório.

Ao ponto que ia lendo a carta de João, notei que além de precisar andar na luz, eu precisava amar a torcida do flamengo + acréscimos que eu não havia perdoado. Veja bem, minha jornada dentro da igreja teve lá seus altos e baixos, e isso deixou mortos e feridos pelo caminho. Na realidade, se parar pra perguntar a qualquer “desviado” (realmente não gosto desse termo) o porquê de ele ter abandonado a igreja, pessoas vão ser apontadas como culpadas. Nós bem sabemos que quem está na igreja não é perfeito, e que se a pessoa abandona Deus por causa de alguém, nunca o conheceu realmente. Porém há quem seja engajado na missão de dar mal testemunho, e quem volta, como eu, encontra boas oportunidades para a prática do tão falado perdão.

Comecei a notar que minha vida com Deus andava travada, e não previa destravar enquanto eu não perdoasse aquela multidão. Igual a vez em que me meti a jogar Tomb Raider.

O Covil dos Coletores. Podem rir, gamers de plantão, eu travei lá. Quem conhece o jogo, sabe que aquilo é um labirinto (ridículo, confesso), no qual entrei e não tive o instinto básico de olhar pra cima, afim de enxergar a saída e passar de fase. E enquanto não fiz isso, fiquei horas andando em círculos. Devo até ter perdido a fome. Perdia a paciência, largava tudo, voltava, fazia as mesmas trajetórias na expectativa de que algo mudasse naquele caminho, me distraía, queimava umas caixas pra depois elas passarem por debaixo da cachoeira, voltarem pelo outro lado, e eu queimar de novo. E assim fui.

Foi mais ou menos o que fiz, sem tirar nem por, a respeito do perdão na minha vida. Fiz e faço constantemente. Não faço a coisa básica que é olhar pra Deus, e entregar tudo pra ele, admitir que não consigo, em primeiro lugar. Fico andando em círculos, me distraindo, vendo Deus agir aqui e ali, sem mudar muito o rumo da minha vida, limitando até onde Ele pode ir. Às vezes acho que consigo, depois já não acho mais. E não saio dessa fase.

Me atrevo a dizer que essa é uma fase que vai e volta na vida, mas no momento que a gente sabe pra onde olhar, o que fazer, não perde tanto tempo.

Deus é muito paciente comigo. Por vezes fico chocada. Acho que a paciência de Deus para conosco é maior até do que a paciência de quem joga League of Legends. Acho, inclusive, que pra eu aprender a jogar isso, só depois de 50 anos de vida com Deus, quiçá depois do arrebatamento.

Deus, na minha humilde opinião, não é igual a mim; se fosse, eu já estaria morta, queimada viva em praça pública. Ele espera educadamente eu passar de fase, me oferece um doritos bem laranja e farelento, e se eu estiver atenta ao que ele quer me dizer, sussurra pra onde eu devo olhar se eu quiser passar logo de fase.

O problema é, quem muito atenta ao jogo, não escuta quem tá na volta.

Já notei. Quem muito olha pros problemas, olha pros defeitos das pessoas, lembra seguidamente do que elas fizeram, se torna uma pessoa como eu, amarga, sem amor, sem misericórdia, e o que é pior, cheia de justiça própria. Eu sou rápida em julgar qualquer um que passe pelos meus olhos. “Misericórdia de mim, Jesus” eu digo. Mas misericórdia dos outros eu não tenho não, pelo contrário, sei rotular bem todo mundo. A vantagem é que a misericórdia de Jesus é unilateral e não depende das minhas boas obras. Não depende, porém, não se conforma com elas.

Dentro do processo todo, tive um passo a passo. Primeiramente cheguei a conclusão que sim, tinha que perdoar. Percebi que naquela parábola do credor incompassivo (homem que foi perdoado e não queria perdoar ao que lhe devia) havia um pulo do gato. O devedor devia tudo, inclusive suas pendências. Ou seja, o que devia ao devedor, na realidade devia a quem é proprietário de todos os seus bens, o senhor. Quer dizer, direito nenhum eu tenho de cobrar quem me deve, pois eu devo tudo ao meu senhor, inclusive minhas dívidas, e ele já me perdoou. Quem me deve, se acerta com o próprio Senhor, e não comigo, como eu petulantemente tenho o costume de fazer.

É uma pena que perdoar não seja assim tão fácil e racional. Mas veja bem, esse é o início. Soube que preciso perdoar, não demorou muito pra notar que não consigo. E é aí que o milagre acontece. Porque pra mim perdão é isso: milagre.

Alguém pode pensar “nossa mas que tanto ela deve ter passado pra achar que é tão difícil perdoar” e continuará pensando porque se eu contasse estaria expondo meus irmãos em Cristo, pessoas por aí, e o TRE que me chamou pra ser mesária pela 3ª ou 4ª vez esse ano. Todas as pessoas tem feridas, e cada um com seus problemas.

Fiz uma lista de todas as pessoas que tinha que perdoar até o momento e decidi. Todos os dias oro por elas. E aí que o milagre começou. Deus está limpando o meu coração, na medida que eu vou orando e abençoando todas as pessoas que me feriram. Foi aquele momento lindo no Tomb Raider que olhei pra cima e vi um caminho pelo teto, que só o que eu precisava fazer era pular. E eu pulei.

Dizem por aí que fé é quando a gente bota o pé e depois Deus bota o chão. Achei apropriado.

Apropriado porém não necessariamente confortável, minha justiça própria está sempre afiada gritando como se o Burger King fosse se extinguir do mundo, mas eu decido que vou entregar ao meu senhor o que já é dele. Quem me deve, deve a ele. Isso, de certo, é tomar a Cruz. Achei chatérrimo. Mas vale a pena, aprendi a passar de fase.

Chega de Doritos, quero uma alimentação saudável, leve. Perdoar é leve. É milagre, e com a graça (seja lá o que isso for na prática) de Deus eu vou conseguir. Depois dessa, até me arrisco ao Lolzinho. É melhor que mulher, há boatos, quando vê eu deveria tentar.

Nessa fase que vai e volta preciso aprender a aprender, afim de levar menos na minha fuça pra assimilar coisas simples.

Paciência é algo que estou assimilando em doses homeopáticas, mas hoje já tenho mais paciência que ontem. Até sachê de maionese, se não tem na mesa, eu levanto e peço no balcão. Quem me viu, quem me vê. A não ser que eu esteja de dieta. Eu também faço dieta. Sim, até eu Brutus.

“ Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora, está nas trevas. Aquele que ama seu irmão permanece na luz, e nele não há nenhum tropeço. Aquele, porém, que odeia a seu irmão está nas trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos. Filhinhos, eu vos escrevo, porque os vossos pecados são perdoados por causa do Seu nome.”

1 Jo 2: 9, 10, 11 e 12

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