Como uma onda do mar

A Praia do Tombo, em Guarujá, tem 800 metros de extensão. O local possui um mirante, geralmente usado para observar as competições de surf, além de cinco quiosques com bares e restaurantes. Apesar de agregar outros esportes no canto esquerdo, como a prática de asa delta e paraglider no Morro da Caixa d’Água, a cultura do surf é a raiz da região e desperta o gosto de paulistanos e santistas.

Mirante usado nas competições de surf (Foto: Jéssica Patrine)

Uma praia suja, que não era visitada por banhistas, que só tinha um atrativo: as ondas fortes, especialmente no canto das pedras, com a arrebentação ideal. Foi nesta parte da Pérola do Atlântico que, na década de 80, um grupo de jovens surfistas ficou conhecido como Tomboys.A fala caiçara de Paulo Sérgio Gonçalves, o Paulinho Tomboys, descreve o grupo como uma tribo índio. Os haoles paulistanos (em havaiano, estrangeiro), eram expulsos pelos locais.

Paulinho recorda de um episódio no canto direito da Praia, quando seu leash (corda que prende à prancha ao pé) se soltou. As ondas levaram a prancha para o meio do mar, onde estavam os haoles. Um deles ao encontrar a prancha, tomou-a para si. Mesmo ouvindo a justificativa do Tomboy, o paulistano não quis devolver. Com um assobio de Paulinho, a galera dos Tomboys recuperou a prancha, que foi devolvida para o dono na marra.

Marca feita no chão da orla da praia (Foto: Jéssica Patrine)

Na época, a família Tomboys era composta por guarujaenses e santistas do Canal 1. Diniz Iozzi, o Pardhal, é um dos santistas que fez parte das aventuras dos Tomboys, segundo Paulinho. O surfista conta que existia rivalidade com os locais das praias vizinhas. O time Maluf Brothers, da Praia das Pitangueiras, que abriga o Morro do Maluf, entravam na área dos Tomboys apenas para jogos de futebol.

João Benvenuto, um dos Tomboys, apelidado de BV ou Bevena, conta que com o passar do tempo, o grupo passou a organizar campeonatos de surf nos quais participavam de 30 a 40 pessoas. Após as competições, havia um luau de entrega dos prêmios para os primeiro colocados. Elisabeth Ninni, tradutora que mora no Canadá há 30 anos, frequenta o Tombo desde os anos 80 e se recorda das disputas realizadas na praia. Destaca que o lugar sempre teve um aspecto rústico que atraía os surfistas.


A praia passou a ser mais frequentada, embora o grupo fosse visto como os donos da praia. Benvenuto enfatiza que a amizade, a solidariedade e o contato com a natureza eram os fatores que aproximavam os Tomboys.

O drop das ondas democráticas passou a valer após a década de 90, quando a praia foi revitalizada. Apesar da natureza passar a impressão de um lugar paradisíaco com a faixa de área próxima do mar e cercada de morros, a praia do Tombo era poluída. O esgoto da região caía direto no mar sem nenhum tipo de tratamento.

A falta de saneamento básico não tinha nada a ver com falta de educação. Os surfistas faziam questão de preservar o mar que sempre mergulharam. Parte da turma de 80 ainda mora no Guarujá e continua ativo, não só no surf, mas na preservação ambiental. Benvenuto, por exemplo, trabalha há seis anos na coordenação de eventos do Núcleo de Educação Ambiental da Praia do Tombo do projeto Bandeira Azul. O objetivo do programa é conservar o meio ambiente e coletar a água para verificar a balneabilidade, já que é a única praia do Guarujá considerada própria para banho. E o Paulinho é presidente da Associação de Surf do Guarujá (ASG), atuando na conscientização ambiental durante as competições de surf.

A nova geração vive os crowds do verão. A rivalidade ainda existe por meio de rabeadas na onda. Entretanto, a amizade na água prevalece. Enquanto esperam a onda surgir é como diz aquele papo de surfista: sempre acaba rolando.

Placa localizada em uma das extremidades do praia (Foto: Jéssica Patrine)