“Obrigado pela atenção de todos”

Sentada em um banco do metrô da linha amarela, lendo entretida Deuses Americanos, vi um homem parar em minha frente para soltar uma súplica. O teor era melancólico. Mais um homem negro, em situação de rua, cheirando a cachaça barata, pedindo dinheiro para sustentar a mulher e as filhas — ou quem sabe para mais uma bebida, pelamordedeus, por que quem é que aguenta esse frio e essa situação?

Eu não sei em que momento ele perfurou a minha blindagem de ser humana paulistana branca de classe média petrificada perante as mazelas da vida urbana. Na verdade, eu sei. Foi uma frase que ele disse que ressoou em algum lugar profundo, e talvez eu estivesse desavisada de que ela chegaria em meu terreno aberto, ou talvez eu só tenha me permitido mesmo.

Depois de se apresentar, perante uma multidão de olhos cansados e jovens hipsters, ele disse:

— Obrigado pela atenção de todos.

Ninguém estava prestando a atenção. Ninguém parou de conversar, ou de ler, ou de escutar música. Ninguém nem parou para olhar enquanto ele falava. Mas ele não foi irônico.

“Obrigado pela atenção de todos.” Foi essa frase que me paralisou. Ela cativou meu olhar e me fez perceber o corpo magro vestido de azul, os olhos também melancólicos, cabelo e barba por fazer e a coragem necessária de quem tem fome.

Ela me fez erguer o rosto e encontrar o dele, me fez sentir mais forte o cheiro do álcool e me lembrou das vezes em que eu, muito menos bêbada e muito mais insuportável, já fui tão mais agressiva — ele só estava ali tentando viver, pedindo ajuda com a maior educação, depois de um gole de coragem.

Ela me paralisou a ponto de eu não conseguir e não querer mais ler. Ela me fez querer prestar atenção, porque ele agradeceu pela atenção de todos, sinceramente, quando ninguém estava prestando a atenção, e ~~ninguém~~deveria agradecer o desdém.

Eu já nem sabia mais o que ele dizia, mas eu olhava pra ele, e olhava pra baixo, e pra ele e pra baixo, já com o livro fechado, o coração acelerado de quem queria pegar um dinheiro na mochila, mas já ia abrir a porta do metrô e eu precisava descer, e agora por qual porta eu desço?, se eu passar por ele vai parecer que eu não ouvi nada, mas que merda! porque eu desci do outro lado? agora pareceu que eu que estava fugindo dele, eu poderia ter ajudado com alguma coisa, mas eu só tenho R$ 15 na carteira e é o que eu tenho pra passar essa semana, e eu tô devendo R$ 2 mil pro meu pai, e eu ainda preciso pagar aquele empréstimo, mas quem sabe um dinheiro pra um salgado já não ajudasse o homem por mais um dia, só até o ponto dele aguentar mais um pouco, até que alguém por favor o encontrasse e pudesse ajudar ele de verdade, mas óbvio que isso não vai acontecer, mas talvez eu devesse pedir pro… universo, por favor, coloca alguém pra ajudar esse homem, mas como eu sou ridícula, pensando nos R$ 15 que me fariam falta, eu tenho casa, e comida, e família, e trabalho e tem aquela passagem da Bíblia, não lembro direito, da mulher deu o pouco que tinha para o homem que pediu, mas um dinheiro de salgado não ia mudar porra nenhuma na vida dele, e que porra barulho é esse na passarela?

eu choro.

Choro porque aquela frase me tocou em algum lugar que nem eu sei. Choro porque o mundo é injusto e eu sou mais uma pessoa de merda que não fez nada pra ajudar. Choro porque eu queria ter dado um abraço naquele cara e isso poderia ter sido melhor que o R$ 15, mas eu saí a passos rápidos pela porta oposta, olhando pra baixo. Choro a cada passo em direção ao metrô da linha verde e me pergunto se as pessoas estão notando, e choro por ter esse pensamento ridículo, foda-se se as pessoas estão notando.

Espero o próximo trem chegar pensando no que Bolsonaro faria para um cara como aquele — ele que chama de terrorista movimento de moradia.

Entro no trem e consigo um lugar pra sentar. O livro na mão, fechado. Me recuso a ler. Me recuso a esquecer. Prometo pra mim mesma que nunca iria esquecer: nem o rosto, nem a sensação, nem a frase. Prometo que ela não sairá da minha memória e peço que ela continue me causando revolta e que a revolta se transforme em vontade de fazer alguma coisa pra mudar.

“Vamos beber, mas não a ponto de esquecer, porque memória é resistência”, ouvi hoje mesmo meu amigo dizer.

Prometo pra mim mesma que não vou esquecer, porque memória é resistência.

Do lugar em que sentei, vejo dois jovens conversando sobre a sociedade enxergar a morte sob a ótica da culpa católica; vejo a TV do metrô marcando 23:22, com os dois pontos piscando e isso me faz parecer que estou num filme como o do Número 23 (aquele com o Jim Carey todo místico em que os números todos somados se transformam em 23 e significam alguma coisa), e isso me faz lembrar da minha irmã que vê número repetidos a todo momento e acha significado pra eles, também. Então a TV do metrô muda pra linha da cultura e eu vejo um casal se instalar à minha frente.

Ela tem uma mochila nas mãos e olhos marejados. Ele se aproxima lentamente, como que tentando quebrar alguma barreira invisível e tenta pegar a mochila que está nas mãos dela, mas ela mesma coloca a mochila no chão.

Ele magoou ela. Pra mim, isso é nítido e eu fico com raiva dele, por ela, e por alguma espécie de sororidade que só o entendimento de leitura corporal e a troca de olhares marejados entre duas mulheres na linha verde do metrô às 23:22 do dia 23 de outubro poderiam ter. Eu fico de ouvidos atentos à conversa, com vontade de pegar na mão dela e perguntar: ele tá te incomodando? E ela provavelmente ia dizer: “não”. Afinal, é namorado dela e foi uma briga boba. Mas bem que ela poderia dizer “sim”, porque dessa vez “ele passou dos limites” e ela está “cansada desses caras todos” e a gente sairia no metrô Ana Rosa e ainda pararia no bar e eu faria questão de pagar uma cerveja.

E lá se iriam os meus R$ 15 que eram pra ser do Jorge — nome que eu dei pro homem do “obrigado pela atenção” por falta de vergonha na cara de perguntar o nome dele.

E eu percebo que eu já me distraí com as conversas paralelas, e com as luzes do metrô e com meus próprios pensamentos circulares, e fico pensando — que merda! — memória é resistência mesmo.

Mas aí já nem penso que seja a minha memória, nem os meus pequenos causos da vida. Mas A memória e A resistência, coletiva.

É uma mulher, nos anos 1970, no metrô de Nova Iorque, e sou eu, ashamed.