Cidadão Kane
Uma análise jornalística sobre o filme de 1941
Cidadão Kane é um filme norte-americano de 1941, dirigido por Orson Welles, que anos antes havia instigado a população após transmitir no rádio um programa baseado no livro A Guerra dos Mundos, que narra uma invasão de extraterrestres a Terra. Welles novamente destacou-se no cenário da época quando, aos 25 anos, lançou Cidadão Kane. A produção transcorre no final do século 19 e início dos anos 20, narrando a trajetória de um magnata da comunicação, Charles Foster Kane. Nessa época, a imprensa ainda trabalhava em cima de um jornalismo opinativo; as reportagens defendiam mais as posições dos veículos de comunicação do que buscavam propriamente expor os fatos com maior veracidade possível ao público.
A ausência de imparcialidade e objetividade era mais predominante que na atualidade jornalística; a narrativa dramática dominava as reportagens, adotando uma visão sensacionalista dos fatos para chocar os leitores e assim atraí-los para a leitura da matéria. A partir do início do século 20, os jornais tornaram-se um expoente ainda maior para os negócios lucrativos, portanto conquistar a audiência era fundamental para os donos desses veículos. Notícias de interesse do público eram veiculadas em detrimento daquelas de interesse público, de cunho educacional para a formação da sociedade.
Nessa época surgia a penny press e a segunda geração da imprensa popular oferecia conteúdo a preço mais baixo, destacando matérias de fácil identificação do público e introduzindo uma linha editorial que beirava ao sensacionalismo.
Charles Foster Kane teve uma infância pobre e conturbada ao viver longe dos pais, que não tinham condições de cuidar dele, resultando em sua adoção por um bancário. Devido a essa mudança na trajetória de vida, Kane aproveitou-se da fortuna do pai adotivo e comprou uma empresa de jornal impresso, movido pela ambição de prosperar e provocar a devoção nas pessoas. Para isso, Kane praticava ações como contratar os melhores colunistas do seu principal concorrente e casar-se com a sobrinha do Presidente dos Estados Unidos.
A trama do filme inicia-se após a morte de Kane, cuja última palavra foi “Rosebud”. Devido a importância do empresário, a imprensa estadunidense da época começou a investigação em busca do significado dessa palavra. A pesquisa é norteada por entrevistas com os principais conhecidos de Kane, que estiveram ligados diretamente a sua vida pessoal e profissional.
No filme, o conteúdo produzido no jornal de Kane, Inquirer, apresenta inúmeras lacunas em questão a imparcialidade. A linha editorial sensacionalista e voltada aos interesses de Kane encobria muitas vezes a veracidade dos fatos e posicionava-se em favor de alguns para obter benefícios, como no caso da guerra Hispano-Americana em que Kane foi um dos incentivadores da disputa para se aproveitar da exclusividade que teria na cobertura jornalística dos confrontos.
A incessante busca do protagonista por influenciar a opinião da sociedade, aproveitando-se de seu império midiático, voltou-se contra si no final da vida, marcada pela descrença do público na informação veiculada pelos seus meios de comunicação. Kane, logo ao assumir o comando do Inquirer, publica na primeira página uma Declaração de Princípios, que alude o código de ética que será seguido pelo jornal. Entre as promessas feitas pelo editorial, Kane afirma que o público terá uma abordagem noticiosa simples, rápida e de entretenimento e que nenhum interesse especial irá interferir na verdade.
O repórter que investiga a vida de Kane, Jerry Thompson, a fim de descobrir o significado de “Rosebud” realiza uma busca partindo do princípio de escutar todos os lados ainda vivos que foram importantes na trajetória do falecido magnata. Nesse sentido, Thompson realiza um rigor a apuração dos fatos da vida de Kane, vai de fonte em fonte colhendo seus relatos e aproveitando-se para verificar em cada entrevista a veracidade do relato de anteriores. A ética de Thompson, que respeita as práticas jornalísticas e não deturpa relatos e inventa situações, confronta-se diretamente com a de dúbia de Kane.
A investigação sobre “Rosebud” desnorteia Thompson, que se foca absolutamente e somente neste aspecto, perdendo outras informações preciosas que constituem a história de um empresário importante para a sociedade norte-americana. A partir do pressuposto de que “Rosebud” seria algo essencial para desvendar uma vez que foi a última palavra de Kane, o chefe de Thompson erra ao deduzir que somente aquilo valia a pena ser descoberto. Todas as informações colhidas pelo repórter perante entrevistas constroem o perfil do falecido empresário, expondo um manipulador perspicaz que não era plenamente de conhecimento público.
Considerando os aspectos jornalísticos, Cidadão Kane expõe práticas existentes no início do século XX e que permeiam os veículos de comunicação na atualidade. Manipulação de informações, parcialidade editorial, omissão de fatos, interesses econômicos em detrimento do interesse público e outras práticas condenáveis persistem na imprensa muitas vezes também comandadas por grandes empresários como no filme.
Cidadão Kane ao traçar dois paralelos claros sobre jornalismo, comparando a ética deturpada de Charles Kane e a veracidade de Jerry Thompson, propõe ao público uma reflexão sobre a produção jornalística e o sucesso. Ao passo em que Kane conquistou um império e posição influente socialmente, Thompson, após profundas investigações sobre a vida do magnata, termina a trama sem descobrir o significado da palavra “Rosebud”, tarefa incumbida por seu chefe de redação. O repórter pecou ao concluir precocemente que sua pesquisa não resultara em nenhuma descoberta útil.
Thompson representa o que se pode denominar como boas práticas do jornalismo, pois ateve-se aos fatos contados pelas fontes e pelos registros sobre Kane pesquisados. O repórter não inventou fatos para atribuir um significado a última palavra pronunciada pelo falecido, preferiu terminar sua investigação trabalhosa numa atitude cabisbaixa, como ficou visível na atuação do ator, e afirmar que estava montando um quebra-cabeças de Charles Kane, mas não descobriu muito sobre o magnata. Apesar de ter colhido informações detalhadas sobre toda a trajetória do protagonista que possivelmente ajudariam a traçar o perfil de Kane e as motivações para ele ter se tornado um megalomaníaco.
Por outro lado, o jornalismo é constantemente distorcido nas notícias veiculadas no Inquirer, mas em poucos momentos Kane é repreendido por praticar um jornalismo por vezes baseado em invenções. Antes de ser um profissional da comunicação, é visível que a sociedade considera Charles Kane uma celebridade, e seu principal escudo para encobrir tais práticas tendenciosas e manipuladoras era sua posição influente. Uma das reflexões propostas por Cidadão Kane é sobre essa questão, se vale a pena praticar um jornalismo ético, buscando sempre a verdade e sem distorcer fatos para o público, ou se vale atitudes repreensíveis na busca pela popularidade e lucro.