
De vilão a herói
A trajetória dos anti-heróis das séries de TV para conquistar o afeto do público
A figura corcunda, de nariz pontudo e capa preta não somente aterrorizou a Branca de Neve, como também os espectadores que assistiam à animação dos estúdios Walt Disney. Provinda dos antigos contos dos irmãos Grimm, a Rainha Má, vilã da história da Branca de Neve e os Sete Anões, surgiu na tela do cinema pela primeira vez em 1937 na animação que iniciaria a trajetória da Disney. Altiva e vaidosa, a Rainha Má desfilava estilo enquanto planejava suas maldades contra a mocinha do conto de fadas; para se disfarçar, ela assumia as feições de uma velha senhora corcunda e de verruga no nariz. Na atual série televisiva Once Upon a Time, a Rainha Má é apresentada com uma história que mais se assemelha à jornada do herói que um enredo para uma tradicional vilã. A mesma Rainha Má que em 1937 assustou crianças transformou-se na queridinha dos telespectadores da série que retrata os contos de fadas numa repaginada moderna. O anti-herói das histórias, antigamente destinados ao ódio do público, hoje muitas vezes é aclamado, especialmente pelos telespectadores de séries televisivas.
O vilão não mais se restringe a ser um personagem destinado unicamente a tentar destruir o herói e interromper sua jornada, na atualidade eles têm muito mais a oferecer, e o público adora isso.
Compreender os motivos para o apelo do anti-herói é como criar um cenário de uma peça teatral: de frente aparenta uma disposição organizada de móveis e objetos; por trás vigas de madeira, escombros e outros materiais utilizados, remanescentes, escondidos. A psicóloga Jacqueline Bahlis alega que personalidade humana assemelha-se a esse paralelo: procura aparentar integridade externa, contudo o interior é conturbado.
Vamos pensar que no mundo real por vezes desejamos internamente ou inconscientemente, de acordo com alguns autores da psicologia, transgredir regras. Mas a cultura, os valores e a moralidade não nos permitem fazê-los”, afirma Jacqueline.
A formação de caráter do indivíduo, desde a infância, influencia diretamente em seus gostos pessoais. Para a psicóloga, o aprendizado por modelagem que temos, seguindo os padrões de nossos pais ou cuidadores, da escola e posteriormente nosso processo de socialização, impõe determinadas regras para se ambientar à convivência. No mundo ficcional, aos vilões é permitido elevar-se de acordo com seus objetivos e egos. Vingança é considerada um dos objetivos que mais figuram nas produções culturais. Protagonistas que sobrevivem por anos em situações desesperadoras somente para olhar seus inimigos e executar seu sonhado plano de vingança afloram na literatura e televisão. Exemplo disso é uma das vilãs da série Once Upon a Time, a Rainha Má. Na trama, ela deseja vingar-se da Branca de Neve por ter arruinado suas chances de felicidade, e marcou a produção do canal norte-americano ABC por seu estilo debochado, as frases pontuadas de ironia e muita vontade de destruir a alegria alheia. Ao contrário do esperado, a mocinha atraiu o público, mas quem ganhou a ovação dos espectadores foi a vilã.
Descobrir a origem da maldade nos anti-heróis, suas personalidades e compreender por que desejam vingança são motivos que fascinam Barbara Vieira, estudante de Letras/Inglês do Rio de Janeiro que acompanha séries há mais de dez anos, antes delas estourarem no Brasil.
Sempre fui apaixonada por vilões, e dois que me chamaram bastante a atenção em Once Upon a Time foram o Rumplestiltskin e a Rainha Má. No início, eles eram considerados vilões, mas atualmente (a série encontra-se na 3ª temporada), eles estão mais para heróis que os próprios
É nessa emoção provocada pelas ações do anti-herói que reside o apelo desses personagens para Barbara, já que os vilões têm uma “pegada” diferenciada em suas personalidades que faz o público desejar se aprofundar em suas nuances.
O canibal mais querido pela audiência
Quando Hannibal Lecter esquartejou os guardas policiais que lhe vigiavam no filme O Silêncio dos Inocentes, muitos podem ter se surpreendido com a cena sanguinária da película de 1991. O filme é considerado pela crítica um dos principais da cultura cinematografia de suspense, com um dos anti-heróis mais carismáticos e macabros da literatura e cinema. O psiquiatra canibal não se tornou um dos serial killers mais temerosos por nada, sua genialidade unida a ausência de compaixão o eternizou na cultura popular. Em 2013, Hannibal Lecter entrou também para a lista de protagonistas das séries televisivas após estrear a produção Hannibal, da emissora norte-americana NBC.
Mesmo conhecendo a história de Hannibal e seus crimes que envolvem assassinato e canibalismo, há algo no personagem que o torna hors concours na preferência entre os psicopatas mais queridos. Após o sucesso mundial de Breaking Bad, produção de TV que tinha como protagonista um fabricante de metaanfetamina, a trajetória dos vilões ganhou o carinho do público. Marcelo Hessel e Érico Borgo, criadores do site Omelete, um dos principais sobre cultura popular do país, percebem o sucesso de Breaking Bad como algo esperado. Segundo eles, isso se deve à assimilação do público com o anti-herói da história, que vivenciou ao longo de seis temporadas uma transformação, deixando de ser um professor de química para controlar um esquema de tráfico de drogas.
As ações do protagonista são justificadas por coisas que aconteceram em seu passado. O telespectador pensa que ele tem de fazer isso (…) para cuidar de sua família, opinam.
O espelho entre a realidade dos espectadores e os enredos fictícios anuvia-se à medida que a busca do público pela perfeição, usualmente associada aos heróis, não é mais uma meta tão atrativa. Considerando que somos seres imperfeitos, passíveis de erros e acertos, Jacqueline aponta que há visível rejeição à perfeição. “Isso pode ser visto como uma crítica à rigidez cultural que defende padrões inflexíveis, cheios de absolutismos e dogmas inquestionáveis, porque com o advento da tecnologia o mundo torna-se cada vez mais interativo”, ressalta.
Para o estudante de publicidade e propaganda da Ulbra, Chrystian Ariel, o atrativo do anti-herói funciona justamente pelo fato dele ser alguém que se assemelha mais com o espectador, um personagem passível de muitos problemas e traumas. Espectador assíduo da série Hannibal, Ariel tem preferência pelo “lado negro da força” na produção do canal NBC, especialmente por a série apresentar, através do Dr. Lecter, a ambiguidade do mundo entrelaçando o lado sombrio com o bondoso. “Hannibal é um dos personagens que mais me impressiona, tanto pela inteligência, quanto frieza ao lidar com os problemas emocionais dos seus pacientes. Devido a sua profissão, ele deveria ajudar as pessoas, mas escolhe jogar com a mente dos seus pacientes usando seu conhecimento apurado na psiquiatria”.
Afeiçoar-se a um anti-herói não é tão estranho como se imagina. Essa atração pode ser compreendida como uma resposta à ansiedade inerente de nossos dias, algo semelhante à interpretação de Charlie Chaplin no filmeTempos Modernos. Ainda em 1936, o ator expressou no cinema mudo a sensação de inquietude de nossos movimentos corporais, aderidos à rotina, vivamente presente no século XXI. Para Jacqueline, essa liberdade de “movimentos” proporcionada na ficção é o que atrai tantos espectadores para a figura do anti-herói. Acompanhar o desenvolvimento do caráter desses personagens semanalmente, como acontece nas séries televisivas, proporciona ao público uma proximidade maior com as experiências dos vilões.
No mundo da fantasia tudo pode, logo já que eu não posso colocar no meu comportamento meus desejos quando estou frustrado, ao menos o vilão o faz, isso gera certo conforto, alívio da ansiedade, ilustra.
A ansiedade está diretamente relacionada aos tempos imediatistas que vivemos, sendo assim, o público almeja os resultados mais “rápidos” que o anti-herói conquista no decorrer da história. “Existe algum mocinho que consiga alcançar seus objetivos no início da trama? Não, pois infelizmente apenas os ‘maus’ conseguem se realizar quando começam as histórias; os ‘bonzinhos’ só se sobressaem ao final, depois de muito sofrerem. E quem gosta de sofrer? E de esperar?”, questiona.
O espelho entre realismo e ficção
Assim como o desenvolver de qualquer gosto pessoal, a “escolha” pelo vilão geralmente ocorre de forma mais aleatória que em relação ao mocinho da trama. Para Barbara, a atração pelo anti-herói funciona independente de qualquer característica dele, e não necessita possuir elementos similares a dela própria. “O vilão precisa me conquistar, é como eu sempre penso quando vou assistir a um filme ou seriado, digo para vilão e mocinho: seduzam-me e veremos que lado ganhará meu coração”, brinca a carioca. Para ela, o suspense proporcionado pelo anti-herói é onde reside sua principal fonte de provocar emoção, já que diferente do herói, seu destino é uma incógnita.
“O anti-herói oferece um leque maior de interesse, apreço. Às vezes ele trabalha sozinho para destruir certos laços e isso atrai a solidariedade das pessoas, assim como o pensamento de que dessa vez pode ser diferente o final” opina Everton Ribeiro, estudante da Paraíba. Fã de séries como Breaking Bad e Hannibal, ele diz ainda preferir os heróis das tramas, mas entende o apelo do vilão, por serem personagens mais realistas, nem bons e tampouco inteiramente maus. Essa visão é positiva, garante Jacqueline, já que ao espelhar-nos em anti-heróis, aceitamos nossas incertezas. Portanto, aquele personagem que assustou o público na infância, hoje pode ser uma válvula de escape da ansiedade cotidiana. Uma mordida na maça da Rainha Má já não parece mais tão ruim como era antigamente.