Holocausto Brasileiro

Resenha do livro de Daniela Arbex

As dores de doentes mentais e vítimas disfarçadas de pacientes com problemas psiquiátricos marcaram os 50 anos do Hospital Psiquiátrico Colônia, localizado na fria região serrana de Barbacena, em Minas Gerais. Em condições humanitárias quase nulas, milhares de internos abarrotavam as alas do Colônia, num inferno que Daniela Arbex trouxe ao público no livro Holocausto Brasileiro. O uso da designação “holocausto” pode pesar no título da obra à primeira vista, todavia mostra-se infelizmente real na reportagem que descortina um genocídio de jovens desvirginadas, alcoólatras, epilépticos, tímidos, entre outros desgarrados sociais que simplesmente não se adaptavam a comunidade. E eram mandados de trem para Barbacena, o “Trem de doido”, que para muitos não tinha mais volta, tal como os trens nazistas que levavam os judeus para suas sentenças nos campos de concentração.

Para aqueles que acham o título dramático, as fotos gritam por si só

Para contar a realidade brutal do manicômio de Barbacena, Daniela abandona os recursos dramáticos em sua narrativa e formata a obra através de uma objetividade que causa estranheza no início, mas no decorrer da história monstra-se necessária. O tratamento desumano destinado a milhares de brasileiros no Hospital Colônia de Barbacena, que resultou em cerca de 60 mil mortes ao longo de décadas, traz o horror às páginas sem necessitar de qualquer dramatização. Neste aspecto, a autora soube construir sua narrativa com perfeição, não impondo ao leitor mais horrores que os contados pela jornalista e pelos próprios sobreviventes.

A maioria dos internos dormia no chão e, em poucas oportunidades, conseguiam cobertos, como os da foto

Utilizando como fio condutor o ambiente interno do hospício, a autora ramifica sua narrativa para aprofundar a história de alguns pacientes, inclusive alguns poucos sobreviventes ainda vivos para contar suas memórias a repórter. Por se tratar de um livro-reportagem, Holocausto Brasileiro também apresenta fotografias de arquivo, buscando auxiliar não somente na compreensão da história por parte do leitor, mas para dissipar qualquer desconfiança em relação a veracidade daquelas linhas. Assim, une literatura e jornalismo numa denúncia tardia, ocorrida após o encerramento das brutais atividades do Colônia, contudo que não perde sua importância considerando o estado dos hospícios atuais. Muitas situações degradantes sofridas pelos internos em Barbacena se reproduz em outros sanatórios no país, como a perda forçada de características essenciais de cada pessoa (vide a raspagem de cabelo), até mesmo a superlotação e a ausência de profissionais treinados na área de saúde. A reforma psiquiátrica brasileira, em parte, foi impulsionada a fim de impedir que o Colônia se repita em outras cidades e denunciar situações bárbaras utilizadas no histórico manicomial, como a lobotomia, técnica recorrente no hospício de Barbacena.

Como cita Eliane Brum no prefácio do livro, o papel do repórter é lutar contra o esquecimento ao transformar fatos, muitas vezes esquecidos no tempo, em uma memória mais recente. Com sua minuciosa reportagem, Daniela expõe assassinatos em massa em uma escala menor que o holocausto imposto a judeus na Segunda Guerra Mundial, entretanto em condições tão degradantes e cruéis como as executadas em campos de concentração. As dificuldades impostas a autora, como a falta de memória de muitos sobreviventes e ausência de documentos oficiais, tornam a obra ainda mais impressionante, por traçar uma linha temporal que não obedece a linearidade, mas é fiel aos fatos e perfeitamente compreensível. Por se tratar de uma tragédia desconhecida para muitos, o relato é ainda mais brutal ao forçar a imaginação por entre os muros do Colônia, atualmente transformado em um confinamento asilar para alguns pacientes remanescentes dos tempos sombrios, e num museu para escancarar aquelas cicatrizes.

Despidos de qualquer vestimenta, os internos encaravam o frio serrano

Em um confinamento onde sequer crianças escapavam dos horrores do hospício, corpos de cadáveres eram vendidos para faculdades de medicina brasileiras, demonstrando que a história do Colônia não era segredo para todos. E mais: nos anos 60, uma reportagem da revista Cruzeiro, incluindo fotos, denunciou o descaso no hospício de Barbacena. Na década de 70, um documentário igualmente retratou o que acontecia com os internos, que em sua maioria definhavam no local. O descaso para com as vítimas dessa história não era somente da Fundação de Medicina Mineira, do Estado ou das famílias que depositavam, literalmente, parentes no hospício, o silêncio de uma sociedade indiferente manteve as engrenagens do Colônia funcionando.