Biblioteca

Dizem que muito tempo antes de eu nascer, décadas, talvez séculos atrás, minha família era muito rica. Muito rica mesmo, e não só rica como importante. Já me falaram que era a família mais importante e abastada da região. Eu não cheguei a ver nada dessa grandeza, quando nasci já estávamos próximos da linha mais baixa da classe média. Hoje em dia, quem me vê dificilmente acreditaria que eu faço parte de uma família que já teve tanta influência assim. Eu, por outro lado, acredito.

Seria difícil não acreditar tendo crescido na casa dos meus avós. Casa… é uma verdadeira mansão. Uma prova física e inegável de que um dia tivemos mais do que dívidas em nosso nome. Ainda hoje estudantes de arquitetura e engenharia organizam grupos para visitar a casa. Na maioria das vezes sou eu que os guio mas nos últimos tempos a velhice está se pondo cada vez mais no meu caminho.

Apesar de ter crescido, e ainda morar, na casa admito que aprendi muito sobre ela com esses universitários. Eles me explicaram, ao longo dos anos, que a arquitetura da casa é uma mistura única de vários estilos: art nouveau nas escadas e vitrais, neoclássico na fachada com colunas, gótico nos torreões ao fundo. Segundo eles é uma mistura que não deveria combinar mas a beleza da casa sempre foi inquestionável.

Eu faço o melhor que posso para mantê-la limpa e em boas condições mas nem todos os meus esforços conseguem igualar o estado atual ao que ela era na minha infância.

Toda a casa brilhava. Eu aprendi a reconhecer meu próprio reflexo nas tábuas meticulosamente polidas do chão da sala de jantar. Cada móvel e bancada era brilhante de cera perfumada e as cortinas esvoaçantes sempre impecavelmente brancas. As muitas cristaleiras na cozinha e sala de jantar estavam cheias de prataria que reluzia como espelho, e taças de cristal tão fino quanto papel.

Meus avós nunca tiveram empregados e eu nunca os via limpando ou organizando a casa mas ainda assim a mansão estava sempre imaculada. Cada peça de decoração e utensílio doméstico parecia imune à poeira que se acumulava nas casas dos coleguinhas que eu raramente visitava. Os incontáveis vidros nunca tinham marcas de dedos ou qualquer tipo de sujeira.

Pensando na minha infância fica claro que eu não consigo cuidar da casa tão bem quanto meus avós. De alguma forma isso não me surpreende nem um pouco. Mesmo quando eu era bem jovem meus avós já eram tão velhos quanto eu sou hoje mas algo neles era diferente. Assim como a casa costumava brilhar, eles também pareciam emitir um certo brilho, alguma energia que eu sei que não possuo. Em um dos corredores do segundo andar existem vários quadros dos meus antepassados, pinturas grandes como uma janela mostrando homens e mulheres que irradiavam uma certa nobreza que eu não vejo — que nunca vi- em mim.

Existe, porém, um cômodo da casa que está tão resplandecente hoje quanto era na época dos meus avós. Mantenho este pequeno salão impecável com um misto de orgulho e vergonha. Se eu fosse como meus avós talvez conseguisse manter a mansão inteira brilhando como a biblioteca.

Apesar do nome, livros são uma das coisas que não se acha na biblioteca. Contrário ao nome, a sala abriga uma impressionante coleção de relógios e uma muito mais impressionante ampulheta.

Lembro de ter questionado aos meus avós sobre o nome da sala e todas as vezes eles responderam que bibliotecas guardam conhecimento e história, e que nada continha mais dessas coisas do que o tempo propriamente dito.

O chão aqui ainda é polido o bastante para que eu veja meu rosto envelhecido nele e, apesar de eu usar sabão de marca barata, as cortinas são brancas como leite. Os incontáveis relógios estão em perfeita sincronia, mesmo que eu não me lembre de ter arrumado ou mesmo trocado a pilha de qualquer um deles por todo o tempo em que cuidei da casa.

A coleção de relógios seria impressionante em qualquer lugar, mas diante da ampulheta no fundo da sala, ela parecia ordinária.

O pé direito da casa é bastante alto e mesmo assim a ampulheta mal cabe na sala de tão grande que é. O design, entretanto, é simples: uma armação de madeira com um recipiente de vidro dentro, areia de diversas cores dentro do vidro, escorrendo pelo funil entre as âmbulas. Meus avós disseram que tinha areia de todas as partes do mundo dentro da ampulheta. Eles me explicaram uma vez de onde cada cor vinha (vermelho do Saara, branco da Grécia…) mas eu não me lembro mais.

A origem da areia talvez explicasse as diferenças no ritmo com que ela cai. Minha memória não é mais tão confiável mas eu tenho certeza de que quando eu era criança essa areia caía grão por grão. Dava até para contar. Durante minha adolescência rebelde o fluxo era rápido, fazia um sussurro constante ao escorrer pelo vidro impecavelmente limpo. Hoje em dia é difícil julgar.

Passo muito temo nesta sala e às vezes mal consigo ver a areia caindo enquanto em outros momentos mais parece líquido de tão rápido que escorre. Nos últimos tempos a média parece estar ficando cada vez mais rápida, o que certamente configura um problema para mim.

A cada dia há menos e menos areia na âmbula superior e não tenho qualquer noção ou ideia de como virá-la quando a areia enfim acabar.

Forço a memória ao máximo e não lembro de uma única situação em que a areia tenha acabado ou estivesse prestes a acabar. Não lembro nem de conversas ou comentários entre meus avós sobre esse assunto. Quanto mais eu penso mais me parece impossível virá-la, e mais impossível me parece que ela nunca tenha sido movida antes.

É certo que ela não saiu daqui em todos os meu anos de vida. Minha primeira lembrança é desta sala e a ampulheta já estava lá. Quando olho a porta e as janelas do cômodo a lógica me diz que é impossível que a ampulheta tenha entrado na sala montada. Às vezes eu acho que construíram a ampulheta dentro da biblioteca.

Às vezes eu acho que construíram a biblioteca ao redor da ampulheta.

Dia após dia eu me levanto de manhã, troco de roupa, pego o jornal na frente da casa, e vou lê-lo na biblioteca junto com uma xícara de café. Geralmente as notícias prendem minha atenção e o café esfria sem que eu o termine. As notícias estão cada vez piores…

Tem dias que percebo estar ficando igual aos meus avós: lendo as notícias e observando a ampulheta diariamente. Eu até tenho outras atividades e passo algumas horas fora de casa todos os dias mas ainda assim sinto uma espécie de necessidade de ir à biblioteca para ler o jornal ou ouvir o noticiário no rádio. Me pergunto se meus avós sentiam essa mesma necessidade.

Há alguns dias mais um grupo de estudantes veio visitar a mansão. Normalmente eu não mostro a biblioteca nessas visitas mas no momento gostaria de ter outras opiniões quanto ao problema da ampulheta.

Eles puxaram pranchetas e réguas e calculadoras, olharam e mediram de todos os lados e por fim me disseram que era literalmente impossível virá-la sem quebrar o teto e um pedaço da parede. Agradeci ajuda e me resignei ao fim da ampulheta.

As notícias estão cada vez piores. Até mesmo eu estou ficando imune à barbárie descrita diariamente nos jornais e revistas. Lembro que uma vez meus avós estavam lendo o jornal nesta mesma sala e começaram a chorar por causa de uma das matérias.

Apesar da minha insistência eles se recusaram a lê-la para mim. Hoje eu sei que foi para o meu bem. Até hoje não sei o que eles leram aquele diz mas deve ser algo do mesmo nível das manchetes de hoje.

Sinto uma ardência típica de choro nos olhos mas nenhuma lágrima escorre. Termino a leitura com os sentimentos anestesiados. Dobro o jornal cuidadosamente e o coloco embaixo do braço. Percorro o corredor com café frio ainda na xícara.

Passo pelos retratos dos antigos membros da minha família. Eu conheço cada nome, cada feição, mas cada vez mais me impressiono com eles. O jornal parece bastante pesado apoiado na dobra do meu cotovelo. Talvez não tenha sido só os membros da minha família ou a casa que costumassem ser melhores no passado. Em dias assim me parece que o mundo todo já foi mais brilhante.

Volto à biblioteca já livro do jornal e da xícara suja. Sentar na poltrona de veludo vermelho ainda é confortável. O som de dúzias de relógios em perfeita sincronia soa como uma sinfonia aos meus ouvidos. Sinto meu corpo se adequando ao ritmo, respiração lenta, coração compassado. Está estranhamente quente hoje.

Abro a janela como raramente faço e um bafo quente invade a sala antes do primeiro sopro de vento refrescar um pouco o ambiente. Não há muita luz do lado de fora, apesar do calor o sol parece não estar presente. Me inclino sobre a janela e vejo a manta cinzenta das nuvens de tempestade cobrindo o céu.

Entre os blocos carregados faiscando com eletricidade vejo manchas e clarões vermelho vivo. Não parece uma tempestade comum.

Volto a sentar e meu olhar é atraído pela ampulheta. Mais vazia agora do que nunca. Apenas alguns dedos de areia restam na âmbula superior, alguns grãos mais persistentes ainda tentam se grudar à superfície lisa do vidro. Parece que vai acabar hoje.

O primeiro raio cruza o céu. Segundos depois ecoa um trovão como eu nunca tinha ouvido na vida. A janela treme, até mesmo a lâmpada treme, o filamento de tungstênio tilinta dentro do bulbo.

Um punhado de grande areia cai.

A tempestade já começa violenta. O vento, antes uma mera brisa, agora parece determinado a arrancar as venezianas ainda abertas. Chuva começa a encharcar a cortina branca deixando-a transparente. Mais um raio.

Mais areia cai. Resta apenas dois ou três centímetros para acabar.

Um trovão ribomba mas é acompanhado por algo além de um raio. O som traz um clarão vermelho, como um explosão pelo céu inteiro. A casa treme.

Quase não tem mais areia. Até os últimos grãos colados à parece da âmbula despencam rumo à garganta no meio da ampulheta.

Há gritos na rua acompanhando os clarões e explosões vermelhos. Sinto como se céu estivesse com enxaqueca. Respingos de chuva já molham o vidro da ampulheta mas os derradeiros grãos de areia lá dentro não parecem se importar.

Um trovão.

Um grito.

O último grão cai.

É, talvez seja hora de acabar mesmo.

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