Arquivo X- Crítica

Texto analisa a série e o retorno na décima temporada

Eu quero acreditar, mas também não consigo confiar em ninguém. Os dois “lemas” da série, talvez devessem servir para guiar os jornalistas em seu trabalho. Afinal, quantas vezes estivemos diante de uma situação, na qual ninguém acredita no que acreditamos, onde tudo parece errado, mas ninguém parece dar importância. Da mesma forma, as fontes e colegas sempre parecem carregar suspeitas, nunca sabemos o quanto realmente são verdadeiros. Mulder e Scully, estão diante dessa encruzilhada: eles querem acreditar, mas não sabem em quem confiar.

Quando Arquivo X estreou, a internet ainda estava saindo do berço. As informações eram mais lentas, reparem nos computadores usados por Scully para redigir os relatórios, eram horríveis. Lembro de um texto tratando sobre o quanto os filmes de investigação policial parecem ter ficados antiquados. Um ambiente clássico destas obras eram as bibliotecas e arquivos, hoje está tudo online. Não é preciso ir até esses lugares, basta jogar no Google. Isso muda muito a forma como narramos as histórias, pois caso quisermos fazer algo contemporâneo, não podemos excluir a internet.

O diferencial da série para as outras narrativas de conspiração é não sabermos direito quem conspira e onde estão. O sentimento de conspiração existia antes de Mulder e Scully, mas a dimensão conquistada na série, concede uma nova roupagem. Nossa desconfiança contamina os governos, instituições e religiões. Nossa luta não é contra um país “comunista”, mas contra inimigos anônimos, quase invisíveis. Essa ideia trabalhada ao longo das nove temporadas, parece ter sido usada pelo governo americano, pois essa é a forma como veem o terrorismo.

Chris Carter tem razão ao dizer que o arquivo X “previu” uma série de coisas reveladas como verdade. O Wikileaks, o Caso Snowden, a vigilância online, o desaparecimentos de pessoas, a difamação por meio de notícias falsas, tudo já havia sido plantado na série na década de noventa. A nova forma do imperialismo americano já havia sido semeada pela ficção.

A série sempre teve um tom político, a conspiração dos alienígenas e pessoas do governo envolve muita política. A ideia de um grupo de pessoas, negociando a preservação de uma parte da humanidade em uma futura invasão, não é semelhante aos franceses aliados dos nazistas? Esse tom é reforçado nos primeiros episódios da décima temporada. Novamente estamos diante de uma conspiração, mas agora parece ser os humanos.

Quando Mulder trata sobre todo o tema da nova conspiração e Scully tenta demovê-lo da opinião, ele olha para o lado, com o canto de olho, parecendo buscar uma forma de convencê-la, tentando encontrar forças para acreditar. Passado nove temporada, os personagens como o fãs, estão mais velhos e calejados pelo tempo, quem irá ter a coragem de revisitar os fantasmas do passado?

Agora, temos um agente da CIA no gabinete do Skinner, recolhendo todo o material. Os inimigos estão lá fora, como a verdade sempre esteve, mas também estão dentro deles. Não esqueçamos, eles entregaram um filho para adoção, foram abduzidos e nunca conseguiram ter uma vida de casal normal, pois a dor sempre os modificou.

A luta dos dois agentes do FBI para encontrar a verdade e desvendar as conspirações, toda a teoria, medo e a possibilidade de termos sido sempre enganados. São excelentes ideias para um clima de suspense e terror, isso explica muito o sucesso do Arquivo X. Os primeiros episódios não são sensacionais, mas conseguiram, na minha opinião, mostrar o por que a série é necessária. Foi uma mistura de nostalgia e atualização.

Como já disse antes, meus gostos pelo terror e a ficção cientifica foram aqui iniciados. Logo, falar que os primeiros episódios da décima temporada são razoáveis, mexe muito com meus sentimentos, mas é a verdade. Os diálogos não precisam ser tão expositivo, bastava deixá-los falar naturalmente, conceder o tempo certo. Agora, como disse antes, as ideias são boas, atuais e mexem com nossa cultura, a série ainda pode provar o porquê é um dos maiores eventos da televisão.

João Diego é formado em Jornalismo e pós-graduando em cinema pela Universidade Tuiuti do Paraná.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.