Churrasco “Perfeito”.

Uma vez temperada, coloque a carne sobre a grelha e espere alguns minutos, não sei bem quantos, mas é bem rápido. Logo você ouvirá o barulhinho da carne e sentirá o tão característico cheiro da gordura, que preenche o ambiente. Rapidamente, a carne apresenta acúmulos de líquidos que emanam de entre as fissuras das fibras. Como a visão de um oásis no deserto. Façamos de conta que é uma grande peça de alcatra, pois é o que eu tenho em mente quando escrevo. Logo ela estará em condições de ser virada e que adorável surpresa. Longe de ser uma coloração opaca e seca, a parte já assada apresenta uma multidão de tonalidades entre o avermelhado e marrom escuro, bem úmida, que alimenta já primeiramente os olhos.

O fato é que comprei uma dessas churrasqueiras elétricas. Valeu cada centavo. Mas antes que possa expressar definitivamente meu contentamento, um desabafo.

Já no carro, quando trazia a churrasqueira para casa, fantasiei um churrasco perfeito. Nos sonhos tudo é perfeito, não? Ela se apoderou de meu imaginário como uma grande paixão. Ao me ver, em sonho, temperando a carne, ligando a churrasqueira, virando a carne, tudo era uma felicidade sem fim e antecipada. Meu sonho se desmanchava sobre minha língua, como a carne que eu logo viria a comer, macio como a pena de um pavão.

A minha calamidade começou no momento em que os palpiteiros — que nunca tomam a iniciativa, mas quando veem alguém colocando a mão na massa, ficam inebriados com a possibilidade de poder “ajudar”, como se convidados fossem desde a véspera 
 — resolveram fazer do meu evento a dois algo de uma grandiosidade inesperada. Tolerei tudo. Meu pequeno evento de estreia tinha de acontecer. E eu passaria por cima de tudo, se preciso fosse, mas meu sonho havia de se realizar, e o mais próximo possível do que eu havia imaginado.

Mas a realidade é sempre radical. Não liga para nossos sentimentos.

Não quero relembrar aqui todos os pormenores que pintariam um quadro verdadeiramente trágico. Deixo-os para a imaginação do leitor. Também não conto tudo de vergonha. Sigamos.

Quando vou conectar o plugue na tomada lá do fundo, ele não entra. Ele é desses modelos novos — paro de escrever para chutar a parede e xingar o cara que inventou isso — e não entra nem com reza. Mas antes disso, momentos antes, vejam só, eu havia quebrado aquele pino do meio com o alicate, “nossa, Juan, como você é um homem de conhecimento prático”, pensei. Depois, na cena em que tento conectar o plugue na tomada do fundo, me desespero ao ver que retirar o plugue do meio não serviria de nada naquele caso. Os caras colocaram uma dupla dificuldade, o pino do meio e a espessura dos pinos.

Nesse ponto, meu humor estava no pior estado possível. Azedo. 
Mas eu triunfaria sobre tudo. Seria, como dizia Mário de Sá Carneiro, em seu conto “O Cágado”, “Sr. de minha vontade”.

— Vamos ao mercado! — disse, com autoridade Napoleônica. 
Lá fomos nós comprar um adaptador.

O sistema é foda. Vejam quanta gente não lucrou com a minha desgraça. Uma arapuca dessas é coisa do demo.

— O que, treze reais! 
 — Por que, Sr., o preço está errado? 
 — Não, é só que treze reais é muito para um negocinho desses. 
 — Ah. 
 — Mas tudo bem — eu queria era bancar o maluco ali, xingar alguém, chamar o gerente, qualquer coisa. Igual naquele filme “Dia de Fúria”. Contive-me.

Por fim, deu tudo certo. Quando vi a churrasqueira funcionando, fiquei mais calminho. E feito o desabafo, gostaria de dizer que estou muito contente com minha nova aquisição, apesar dos percalços.

Assim se deu o ocaso de Juan Dias.