Verde

Enquanto procuro o vasilhame para descansar a massa, dou conta de ter em mãos o azeite, sal e pimenta, fazendo jus às palavras ditas por minha avó, em uma das últimas vezes em que ela pôde me acompanhar durante nosso programa na cozinha as quartas à noite:

Pareço ter me descrito em uma carta e entregado aos céus rogando por você, minha Alice. Nossas semelhanças me estarrecem, afinal, sabes bem que posso bater claras de ovos enquanto colho os temperos para as panquecas, sem deixar que minhas músicas do Roberto saiam do tom.

Eu a venerava.

Moramos juntas por pouco mais de dez anos. Após a ida de minha mãe para alguma aventura pelo mundo, tratei de trazer a avó para perto. Pela companhia, pelas músicas do Roberto Carlos cantadas num dueto Alice-Tereza, pela primeira e única viagem de avião que fizemos de mãos dadas, pelo pé de jabuticabas no jardim, por todas as receitas que cozinhamos juntas.

Lembro-me perfeitamente de seu comentário assertivo, ao afirmar que quando uma receita era realmente apreciada e caso a mesma fosse preparada detalhada e harmoniosamente, não haveria mal que pudesse atingir o sortudo que a provasse.

Exceto uma vez em que deixei D. Tereza deitada na rede da varanda na tentativa de harmonizar o sabor de um quiche de alho poró bem turrão que não pegava gosto nem com todo sal, pimenta, tomate seco ou reza brava desse mundo. Foi quando me dei conta que minha avó, dentro de sua mala, guardava um verdadeiro arsenal de temperos, cheiros, condimentos e sabores de todos os tipos, “para chef nenhum de meia tigela botar defeito” – como dizia ela.

O cuidado que tive para abrir a mala foi tanto, que desperdicei tempo o suficiente para conseguir sentir um cheiro de queimado, apanhar o primeiro tempero verde que vi e correr de volta para a cozinha, certificando-me de que a mala estava em seu devido lugar.

Que mal haveria em colocar um pouco de tempero verde num quiche?

Bom, nunca, em toda a história, tinha-se ouvido ou presenciado uma gargalhada tão alta como a que D. Tereza soltou quando levou à boca minha receita tão bem temperada.

Filha, os temperos devem se conversar sem tirar a atenção do ingrediente principal.

Eu havia colocado manjericão em meu quiche. Rimos durante toda a noite. Rimos até sair água dos olhos.

Trazendo meus pensamentos de volta à massa daquela noite, os minutos de saudade foram acompanhados por minhas mãos secando o rosto ao perceber que já passava da hora de pôr a receita no forno.

Desenrolei a massa, suavemente deslizei sobre ela o molho de tomates, queijo para gratinar, tomates in natura picados e manjericão.

Ouvi o alerta do temporizador e coloquei a bandeja quente sobre a mesa, a taça em minhas mãos deixava o líquido de dentro meio zonzo pela inquietação e eu senti meu coração bambear junto.

O manjericão daquela noite já não me traria lágrimas de riso.