Sobre a casa
O aprendizado da casa é difícil. Entender as paredes, decorar o caminho no escuro, saber o cheiro da cama requer tempo e um tipo de amor. Um tempo de regar as plantas, de saber quando o vizinho liga a TV, de decorar a melhor hora em que a luz entra na sala e estar lá para assistir. Um tipo de amor que conhece as formigas e se conforta com a estática ambiente: a caixa dágua, os vizinhos no play, o elevador.

Aprender a casa é exercício de criação de um mundo. Aquele cosmos pra chamar de seu porque a casa não comporta o mundo. É necessário aceitar os limites da construção e entender a existência única entee quatro paredes.
Para aceitar a casa, é necessário deixá-la. Explorar a rua, o quarteirão, memorizar o nome do padeiro da esquina. Saber pelo menos quatro caminhos alternativos entre o supermercado e o lugar pra chamar de lar. É preciso pegar o metrô, o ônibus, o avião, perder-se sem google maps e aprender novos endereços.
O tempo fora de casa é o que determina a casa. A distância entre o espaço do outro e do meu. Porque a casa só é casa quando é minha a bagunça, meus potinhos na geladeira, minhas anotações no quadro de avisos.
Importante também criar regras, sem preocupar-se entre democracia e tirania. Tirar ou não os sapatos, a hora de por o lixo pra fora, poder ou não fumar, onde colocar as bolsas.
Aí podemos sentir-nos seguros e sobreviventes dormindo, comendo, fodendo e cantando no chuveiro, para então entender que a casa não existe.
A verdadeira casa carrega-se nas costas. O corpo-casa, a alma-casa, o mundo-casa, com o descaso e o acaso de viver sem trancar as portas.