Sobre a gentileza

Imagine uma mulher louca abrindo a porta do seu carro em uma noite chuvosa quando voce encosta para buscar um amigo no escritório. Ela grita fervorosamente algo que voce não entende e gesticula frenética, encharcada pela chuva enquanto você tenta passar pela linha de carros que não se mexe durante alguns abrir e fechar do semáforo.

Você pode visualizar que ela está irritada porque é mais uma vítima da doença do século e da cidade, o estresse. Talvez especialmente irritada por causa da dificuldade de pegar um taxi, por causa da chuva e por causa do guarda chuva que esqueceu no salão. Talvez ainda um pouco mais irritada porque o cara com quem marcou hora para um corte de custo absolutamente desproporcional tenha deixado a assistente fazer o trabalho e agora ela parece algum cachorrinho de madame com a franja estranhamente arrepiada escorrendo de chuva pela testa, ou talvez sinta que pareça.

Comece a projetar que ela entra no carro porque ele tinha coincidentemente as mesmas iniciais de placa e a mesma cor que o Uber que ela pediu e que não parou para que ela entrasse, mas arrancou, no mesmo momento em que ela alcançava a maçaneta e talvez isso explique porque gritava. Você pode imaginar que isso a esquentou ainda mais do que o motivo óbvio, mas porque ela finalmente resolveu aderir ao uber após uma sequência de experiências catastróficas com o 99 taxis.

Não é possível saber neste momento que acabara de chegar a notícia de que seu gato de estimação está morrendo. Nem que ela não dorme bem há dias por cortesia de uma obra que acabara de começar ao lado do apartamento novo. Tampouco que lida com a instabilidade de ego de alguém que há pouco se separou, que amanhã tinha uma apresentação importante ou ainda que ela se cortara ao catar um caco do vidro que quebrou na sala.

Imagine. A chuva parece levar do corpo todo o pouco otimismo que ela trouxe na mala ao chegar em São Paulo. Agora ela sentia-se completamente só, abandonada por qualquer hipótese de um serviço bem prestado. A agua atravessa seu corpo, deixando apenas um rastro salino em cristais de raiva e ressentimento. Ela então deixa abrir um compartimento secreto, alçapão interno de experiências guardadas: a raiva do trânsito, a raiva da fila, a raiva das catracas na entrada dos predios, a raiva do horário de ponto, a raiva dos preços, a raiva das grosserias, a raiva da ligação vendedora do call center, a raiva da demora, a raiva da vontade de ir embora.

A imaginação é a inimiga virtuosa da raiva. É facil atravessar os dias atravessando pessoas, fantasmas sem recheio pela falta de conversa, a falta de conversa pela falta de imaginação. Tenho certeza de que da próxima vez, quando nao for eu a agir, imaginarei.