Sobre a intimidade
Intimidade é materia fragil. Um tropeço, um peteleco e já quebra. Rara, asa de borboleta, não se constrói nem se molda. Nem se cola com durex…
Essa furta-cor dança como se fosse leve e perde-se no ar. Há que se perdoar a confusão da vista: O inseto auroraboreia em bolha de sabão! Um sopro, um suspiro, um espirro e aquela costura invisível que costumava carregar as conversas de sorrisos desfaz-se na paisagem sem rastros, nem cacos.
As intimidades precisam matar suas lagartas para voar e, uma vez feitas, plainam animadas durante 24h até a própria morte.
Diz-se que os antigos costumavam dar a seus amores pequenas jóias feitas com o delicado material como prova de devoção. A difícil manipulação é arte esquecida com os ourives da época.
Embora preciosa, não há como protegê-la. Se guardada em caixinha, em redoma ou moldura, a intimidade sufoca.
Não se deixe enganar por seu aspecto franzino e delicado. As intimidades, em seu estágio pós-casulo, sustentam seres humanos adultos (embora caibam melhor em seres de porte pequeno, como crianças).
Há, pois, que vestí-las. Preferencialmente sobre os ombros. Ou deitá-las sobre os olhos. Pode ser um pouco estranho no início. Você pode sentir cócegas. Tontura. Leveza. Não se preocupe. Ao alargar dos casulos tudo ficará mais confortável.
