Sobre a Quarta Feira

Não se engane. Nessa fartura de cores, de picotes laminados, arranjos floridos com frutas e plumas, o carnaval é mesquinho.

A música tem três acordes. A rua não tem espaço. A semana não tem tanto tempo e o carnaval acaba.

O copo vazio, a calçada lamacenta e o confetti tingido de cinza, o resto de glitter no corpo e o pulmão cansado reclamando as pernas e as perdas de uma carteira, um celular, um amor.

No cortejo histérico de selfies, bradamos os romances impossíveis que nunca teremos, o coração exuberante em ritmo de tambor que não cabe na vida — é só fantasia.

Lembre-se disso. Ao virar a última esquina do último bloco, no último dia, o ano começa. O alarme toca, o sonho desperta e será necessária uma avenida de esforços para existir, resistir e embriagar-se com os encantos sutis da realidade.

Resistamos.

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