Sobre David Bowie, Batman e Darwin

Bem instalado num palácio sobre as nuvens e decorado com raios (como não poderia deixar de ser), ele sorri. Sabe que a melhor coisa que pode acontecer a um artista é morrer. Já dizia batman: ou morremos heróis, ou vivemos o suficiente para nos tornarmos vilões.

Quantos grandes gênios já não observamos definharem sua criatividade ao crivo implacável do tempo? Quantos outros não assistimos ascensão, apogeu e queda, apegando-se à idéia repetida, transformando suas pedras filosofais em mercadoria plástica made-in-china?

Há ainda o sacrifício em manter-se relevante para o consumo de uma nova geração. A cultura morfa em desejos inesperados e joga o artista entre a cruz de tornar-se datado e a espada de forçar uma criação “moderna”, abandonando seus seguidores.

A mutação é um conceito evolutivo que nos lembra o quanto a mudança faz parte essencial de nossa sobrevivência. Enquanto muitos confundem a genética na idéia de talento inato, darwin nos ensina que a mudança genética casual é a grande responsável por toda a dinâmica evolutiva que rege o tempo de permanência no mundo. Não existe sobrevivência predestinada e inata, da mesma forma que não existe talento — apenas um processo de dedicação, esforço e sensibilidade.

O artista que muda entende que a arte é maior que o artista. Que não há mérito intrínseco em ser quem se é, mas sim em produzir o que se produz. E que o mérito do que se produz é contextual ao tempo que se vive. Entrar para a história é portanto fruto da reinvenção após a morte. Alguém cuja obra se abra, continuamente, a novos significados em novos tempos.

De fato, bowie é um destes seres de consistência peculiar. Com uma única constância, de mudar, o artista se mantém relevante com unanimidade ímpar. Ainda não vimos todas as suas faces. Sua obra, contendo reflexões infinitas, como um corredor de espelhos que se multiplicam, faz crer que este não é o fim do seu tempo.

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