Coisas Frágeis

Há pouco mais de dois anos, eu escrevi o seguinte texto, que compartilhei apenas numa rede social chamada Ello. O foco dela mudou de lá pra cá, se tornou um site para artistas visuais, e não há mais espaço para textos. Portanto trago para cá todo o sentimento que pus nesse relato, mesmo porque muitos ainda são presentes, como a tristeza, a saudade e o arrependimento, com a intenção de guardá-los em um local de mais fácil acesso. Irei omitir a primeira parte do texto, quem quiser lê-lo na íntegra, pode se direcionar à outra rede citada anteriormente.


Coisas Frágeis
Não aquele escrito pelo Neil Gaiman

[…]

Minha avó morreu.

Passei meus 20 e poucos anos vivendo numa casa com minha mãe, meu pai, e minha avó materna (os nove… acho? anos iniciais com a presença do meu avô materno). E nas últimas semanas a casa estava mais vazia.
Minha avó foi diagnosticada com pneumonia, ainda sequelas dos mais de 60 anos que passou fumando, e foi parar no hospital. E foram semanas de apreensão. Não sou a pessoa mais emotiva em questões familiares. Já passei por outras perdas (nenhuma tão próxima assim) nos últimos anos, e sempre fiquei mais preocupado com a minha família viva reagindo a isso, do que com os que se foram. Mas essa me afetou de diversas formas.
Em meio a melhoras no quadro dela, e recaídas, no fim fizeram uma traqueostomia pois o tubo em sua boca a deixava estressada, o que prejudicava seu coração. A operação foi um sucesso, e logo ela estava respirando por um tubo em seu pescoço.
Porém, alguns dias depois, no dia 17 de fevereiro de 2015, ela teve um ataque cardíaco por volta das 11:00h e não resistiu.

E isso está bagunçando a minha cabeça.

Eu fui visitar a minha avó em um desses dias, logo no começo, quando foi transferida para o hospital em que recebeu o melhor tratamento. Porém ela estava desacordada. A princípio tinha que ser sedada para que se acalmasse. Minha avó sempre foi uma pessoa muito complicada de lidar, e imagino as dificuldades que teria no tratamento de alguém que ficasse reclamando por estar sem roupas, numa cama de hospital, querendo ir para casa. Alguém que não entedesse a situação em que se encontrava.
E essa foi a única vez em que a visitei. O ambiente de hospital é algo o qual é difícil de suportar para mim. Era assim na minha cabeça, e foi comprovado nesse dia de visita. Alguns dias depois pararam com os sedativos, mas eu não me desloquei até o leito em que ela estava por pensamentos positivos, que haviam tirado os sedativos e que logo ela estaria melhor, que seria transferida para outro local onde conseguiria visitá-la sem me sentir tão mal.
Mas não foi bem assim. Ela voltou a piorar, não conseguia respirar e teve que voltar aos tubos, e passou por uma traqueostomia, como disse acima. Se já era difícil vê-la deitada naquela cama com um tubo em sua boca, imagina em seu pescoço?

E agora estou me sentindo mal todos os dias desde o dia em que recebemos a notícia de seu facilmento.

Não dizia Eu te amo para ela há tempos, não sei se ela soube que a visitei enquanto inconsciente. Eu não me despedi. Ela não me viu em momento algum no hospital. E ela se importava. Ela me amava. Antes de ser sedada e ser diagnosticada, ela perguntava por mim.
E eu só apareci enquanto ela não podia ver que eu estava lá (e eu nem sabia que ela estaria sedada).

Não sei até quando isso vai me incomodar. Talvez para sempre. Talvez mesmo quando eu esquecer, eu tenha flashes desses pensamentos só para me sentir mal, para perceber que certas coisas devem ser feitas na hora. Não podemos mesmo adiar algumas delas…

Minha família está lidando melhor do que eu esperava com a perda.
Minha avó, que estava meio pessimista quanto a vida e a saúde já há alguns meses (talvez anos), regularmente falava que se fosse para ficar numa cama de hospital, e que a família se preocupasse com ela, para que Deus a levasse. E o que eu desejo é que ela tenha chegado ao local que esperava chegar. E que seja tudo aquilo que ela sonhava.

[…]

Vidas Breves
Porque roubar títulos do Gaiman é meu escape nesse desabafo

[…]

Quem estava ao meu lado enquanto eu chorava ao receber a notícia, que me abraçou em silêncio e esteve conectada a mim foi a Gabriela. E assim estamos escrevendo a nossa história, que desejo ser mais eterna que tudo aqui contado.
De qualquer forma, como disse Vinicius de Moraes, que seja eterno enquanto dure.