O rap feito por quem nos fez: rap africano

Dizem que a música, bem como a humanidade, nasceu no continente africano. Em especial, a percussão deve muito de seu desenvolvimento à África, que fez nascer tambores, atabaques e outros tantos instrumentos que foram usados em rituais religiosos e como meio de comunicação. Dinho Gonçalves, em seu livro “A História da Percussão”, decreta que “a percussão praticamente surgiu junto com a raça humana”.

Do início da percussão aos beats presentes no rap, alguns milhares de anos se passaram, mas a matriz permanece: o rap, um dos pilares da cultura Hip Hop, tem sua maternidade atribuída à Jamaica dos anos 60, um país cuja tradição cultural é uma das mais nítidas heranças do povo africano.

Em 2017, o rap se tornou o gênero musical mais consumido nos EUA, superando o rock pela primeira vez na história. E isso não é pouca coisa. A cena do Hip Hop nos EUA é a mais ativa e produtiva do mundo. Não é à toa que, quando você leu “rap” algumas linhas acima, provavelmente veio à sua mente a imagem de artistas como 2Pac, Snoop Dogg ou RZA.

Apesar da notoriedade estadunidense quando o assunto é Hip Hop, artistas do continente-mãe têm trabalhado duro para fortalecer a cena local. A partir de agora, recomendo que dê play nessa playlist aqui debaixo e venha conhecer o rap africano.

Mesmo em outro continente, a vivência do rap permanece a mesma: saído das periferias locais, as letras — em francês, africâner, akan e até inglês — contam o cotidiano violento e os desafios do subdesenvolvimento. O que destaca os artistas africanos das demais produções são as reapropriações dos ritmos “primitivos” e do uso das letras nas lutas pela liberdade política que correm pelo continente.

Em 2013, Burkina-Faso vivia uma grande crise política: o presidente, colocado e mantido no poder pela França, antiga colonizadora do país, tentava uma terceira reeleição, algo ilegal em Burkina-Faso. Rappers como Sams’K e Smockey iniciaram uma campanha, através de suas músicas, de resistência e conscientização da juventude burquinense. Em 2014, centenas de milhares de pessoas marcharam rumo ao palácio presidencial pedindo a saído do autocrata. Conseguiram.

Serge Bambara, mais conhecido como Smockey

Junto com Smockey, artistas como Yao Bobby (Togo), Big D (Senegal) e Moussa (Guiné) fundaram o UAAR (United Artists for African Rap), um coletivo com 17 artistas que estão comprometidos em usar suas rimas e beats pelo desenvolvimento da África.

Da Tanzânia, vozes como a de D Knob trazem a língua suaíli para dentro do jogo do rap. O jovem rapper é um dos mais tocados na costa leste africana e está envolvido com projetos sociais em comunidades carentes desde 2004. Para o texto, procuramos a tradução de suas letras em suaíli, mas não há registros. Seria um sinal que o Ocidente ainda não é capaz de entender em sua totalidade a complexidade musical africana?

Seguimos tentando.