gradually, then suddenly

“Hemingway tem um momento clássico em “O Sol Também se Levanta” quando perguntam para Mike Campbell como ele faliu. Tudo que ele consegue dizer é, “Gradualmente, depois rapidamente.” É assim que a depressão atinge. Você acorda uma manhã com medo de viver.” Geração Prozac, 2001.

Quando assisti esse filme, alguns meses atrás, me identifiquei muito com essa definição da depressão. Lembro que fiquei obcecada com o “gradually, then suddenly”. Tanto que foi o que coloquei no assunto de um dos “emails desabafo” que mandei a uma amiga na época. Acho que essa minha obsessão foi porque é exatamente assim que sempre foi comigo. Começa devagar, alguns pensamentos negativos tomando espaços maiores, uma tristeza lenta e paralisante, e de repente me vejo em um lugar muito ruim. Com paranóias, inseguranças e sentimentos que não desejo a ninguém.

Estou em uma crise há umas três semanas. Há dias como hoje que eu faço qualquer coisa que não me de tempo de pensar, e que simultaneamente não exija muito esforço (como maratonar séries ou dormir a tarde inteira). Há outros dias em que eu fico sedenta por ler sobre isso, em procurar todo tipo de texto, artigo, poema, filme sobre o assunto. Nesses dias acredito que se eu ler o suficiente, minha dor e essa coisa em mim fará algum sentido, e que tendo esse sentido eu conseguiria me libertar. Talvez seja também uma forma de tentar não me enxergar tão sozinha e esquisita por causa dos meus sentimentos. Uma forma de ver que é um problema muito mais presente do que imaginamos.

Já tinha uns meses que eu não me sentia dessa forma com essa intensidade. Com a ida pra uma escola nova, terceiro ano e pré vestibular, adolescência e carnaval carioca, parece que não tive tempo pra sentir qualquer coisa de verdade. A nova rotina, as novas pessoas e experiências acabaram me carregando sem muitos alardes. Mas, e sempre tem um mas, as coisas começaram a desandar. Gradualmente, depois rapidamente. Uma tensão foi crescendo, a decisão de assistir uma tal série famosa, e a primeira semana sem provas do ano letivo. O primeiro feriado, o primeiro tempo livre que tive. E então tudo que estava se acumulando, explodiu. Rapidamente. Minha paz se perdeu em algum lugar por aí.

Nessas semanas tive acessos de choro recorrentes, mais consultas com a minha psicologa que o normal, uma experiencia traumática com álcool e estresses escolares. Também briguei com amigas, não respondi emails e mensagens e desisti das minhas redes sociais (às vezes me animo imensamente com essas coisas, depois não posto nada por semanas). Pensei muito, e pensei muita coisa ruim. Assisti alguns filmes, algumas séries, mas faz tempo que não faço algo realmente sério. Útil. Talvez essa seja a coisa que me deixa mais desesperada por melhorar, louca pra que as coisas mudem. Seja meus pequenos fracassos pessoais, as coisas que vão se acumulando e que não tenho coragem de resolver. Conversas que parei no meio, meu quarto desarrumado, meus estudos, livros, tudo parece um pouco esquecido. Sinto que as coisas mais simples estão fora do meu controle e, por isso, quando penso numa visão maior, como que faculdade farei ou como viverei minha vida, acho que não tenho salvação. Que não tenho chance de fazer algo de bom sair da bagunça que vivo com a minha cabeça.

Fica difícil pedir ajuda. Tão difícil que acaba fora de cogitação. O que falei sobre o assunto foi pouco com as minhas amigas, com minha mãe foram só crises de choro e com a minha psicóloga já sinto que andamos em círculos. E é essa visão de círculos que me atormenta. Porque cada crise parece pior que a anterior, e cada crise é um lembrete de uma doença que não vai embora como uma simples dor de cabeça. Mas sim que fica na minha vida sempre, mesmo quando não toma o controle das minhas vontades e pensamentos, está sempre ali, presente, acompanhando, pronta pra me pegar desprevenida e atrasar minha vida por algum tempo. A ideia de que isso estará comigo pra sempre, de que minha vida será repleta de momentos ruins como esse, de recaídas e dores como essa, me dá mais tristeza. Me dá raiva. Me dá desesperança.

Há um poema-falado que me emociona toda vez que vejo. Ele começa assim:

Mom, my depression is a shapeshifter
One day it’s as small as a firefly in the palm of a bear
The next it’s the bear

(Sabrina Benaim)

São nesses momentos, quando minha depressão é o urso, que procuro formas de ver que não estou sozinha. E não me refiro a amigas ou familia ou qualquer coisa assim. Nesses momentos, o amor vira uma especie de infecção (vide poemas de Anne Sexton, falarei mais disso em algum momento), e procuro o consolo de pessoas tecnicamente distantes e com vidas totalmente diferentes. Vejo o rumo de suas vidas e tento criar cenários do meu próprio futuro lidando com isso. Porque pra mim esse é o principal problema. É como o futuro parece inacessível pra mim. Portanto minhas tristezas andam juntas com um desejo de morte tão grande e primitivo que me assusta.

E é esquisito tentar pensar em algum momento, ou época em que eu não sentisse estar presa nesse circulo, temendo pela nova transformação da minha depressão, acreditando estar na pior crise só pra descobrir um mundo bonito e cheio de possibilidades depois. E depois um buraco mais fundo que o anterior. E assim indo…

Enfim, como diz Wado e Cicero em Zelo, isso também vai passar (outro assunto de um dos meus emails!!).

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