Nem Todos Se Sentem Assim

Como a depressão te convence a pensar que ela é normal


Ontem, Robin Williams morreu por suicídio. Eu não tenho como saber por que, naquele momento, ele sentiu que dar fim à vida dele era a única saída, mas a versão da história que parece mais real pra mim — e pra muitas outras pessoas — é que foi a depressão dele que o matou. Desde que as notícias saíram, a internet tem sido um lugar triste e bonito para se estar. Eu passei horas ontem à noite e hoje de manhã olhando o Facebook e o Twitter e me sentindo conectada a uma comunidade enorme e temporária, unida pelo nosso amor e pelo nosso luto para com este homem que nós não conhecíamos. E espalhadas dentro dessa comunidade, com uma frequência realmente impressionante, encontravam-se as expressões de lamento que tão inevitavelmente se seguem a suicídios noticiados, todas elas variações de depoimentos como: “Se ao menos ele soubesse o quanto ele era amado”, “Se ele tivesse estendido a mão em busca de ajuda”, “Se ele soubesse que não estava só”.

Historicamente, quando eu via essas ondas de senso comum equivocado dominando as redes sociais, eu ficava com raiva. Hoje de manhã, no entanto, eu não fiquei. Eu fiquei verdadeiramente, genuinamente confusa. Por que essas pessoas não entendem que não se pode simplesmente fazer a depressão ir embora por força de vontade? Ela não é algo que se resolva “estendendo a mão” ou “sabendo que as pessoas te amam”; a depressão não é, de forma alguma, você, mas sim um programa malicioso que se alojou no seu cérebro e que acontece em paralelo à sua existência, e transforma o seu cérebro numa disputa concorrida por território entre o malware e o firmware. Não é só que a depressão vá aos poucos desbastando sua energia, seu foco e sua clareza, mas também o que te sobra disso tudo é já tão exaurido pela incessante tentativa de defesa desses recursos que às vezes você só quer se entregar, desistir, afundar totalmente na escuridão quentinha e silenciosa.

E então eu percebi porque eu senti essa confusão: neste momento, hoje, eu simplesmente presumo que todo o mundo sofra de depressão. Que isso seja o preço a se pagar por negociar com o cérebro humano, um inevitável prejuízo causado pela bela brutalidade que é ser uma mente consciente e pensante.

Em seguida a essa percepção, eu tive outra: já faz cerca de 6 semanas que eu não tomo meus antidepressivos. Nos últimos meses, o preço de apenas uma das minhas pílulas explodiu para US$ 20 e por isso eu ainda não fui buscar minha receita, e então eu entrei num ciclo de inércia: não tomar as pílulas levam ao aumento gradual desse ruído de TV se infiltrando pelos cantos do meu cérebro, que por sua vez me levam a não querer tomar as pílulas, levando a mais ruído et cetera et cetera e assim por diante.

Eis a questão: eu AMO meus antidepressivos. Pessoas diferentes têm experiências diferentes com drogas diferentes, mas pra mim, eles são pequeninos milagres. Eles me tornam eu — eles não melhoram meu humor, eles não me dão energia. Eles só afastam o malware para que eu tenha espaço o suficiente pra ser o meu eu normal, com felicidade, tristeza, e tudo mais.

Antes de eu começar a tomar meus antidepressivos, no entanto, eu não sabia de fato que eu sofria de depressão. Eu achava que os obscuros cantos ruidosos da minha mente eram uma parte de quem eu era. Foi desse mesmo jeito que eu me sentia antes de botar meu primeiro par de óculos aos 14 anos de idade e repentinamente perceber que árvores não eram manchas verdes, mas sim complexos treliçados de milhares de folhas individuais; eu não sabia, antes, que eu não conseguia ver as folhas, porque eu não sabia que ver folhas era possível. Então, até que eu começasse a usar ferramentas para contrabalancear minha depressão, eu não tinha ainda percebido que tinha uma depressão ali pra ser contrabalanceada. Eu não tinha ideia de que nem todo o mundo sentia essa atração gravitacional do vazio, esse sentimento contínuo e lento-como-melaço de que você está derretendo aos poucos e se tornando uma poça de argila. Eu não tinha como saber que aquilo que eu achava que eram apenas meus maus hábitos já arraigados — não conseguir depositar os cheques a tempo, enrolar pra responder a e-mails totalmente carinhosos até arruinar amizades, ter crises silenciosas sobre se vestir de manhã, até não ir ao banheiro apesar de precisa muito, muito, muito ir fazer xixi — na verdade, não eram nem hábitos meus. Eles eram hábitos da depressão da qual, uau!, caramba, eu descobri que eu tinha um caso grave.

A questão aqui é simples: eu não percebi que eu tinha depressão até que uma pílula mágica fez minha depressão regredir. Eu achava que todo o mundo se sentia como eu. Até eu descobrir que não era assim que as pessoas viviam se sentindo o tempo inteiro, eu achava, de fato, que todo o mundo tinha depressão.

Esse é o mesmo pensamento que eu tive hoje de manhã, porque — estando sem tomar essas malditas pílulas há algum tempo, o que, a propósito, eu vou resolver hoje, ou pelo menos vou tentar, porque eu já começo a sentir a inércia flexionando seus músculos obscenos — eu baixei minhas defesas. Sem que eu nem percebesse, a depressão silenciosamente berrou "aê!" e veio correndo de volta. E uma das coisas que a depressão é muito boa em fazer é se disfarçar de normalidade. Dizer que ela não é o que ela realmente é. Se recusar a reconhecer que você não está usando seus óculos, dizendo "não, não, nunca existiu essa história de folhas individuais naquela árvore. Ela sempre foi uma mancha verde. Todas as pessoas no mundo inteiro só vêem manchas verdes."

Você pode não saber se você tem algo malicioso no seu cérebro te dizendo que isso é normal, que é assim que todo o mundo se sente. Mas se seu cérebro está te dizendo qualquer coisa contrária ao fato de que você é bom, capaz, que você está no controle, e que o mundo tem vários caminhos para a felicidade que você — sim, você, esse maldito, imprestável, fraudulento, preguiçoso desperdício de espaço — é qualificado para escolher e trilhar, então você deveria considerar a possibilidade de que você esteja batalhando contra esse malware sem nem saber. Pode ser que não seja depressão. Pode não ser algo que uma pílula mágica consiga resolver. Mas não é assim que as coisas devem ser. Isso não é o que você merece. Você não tem que aceitar isso. Nem todo o mundo se sente assim. A escuridão é uma mentira.

Está vendo aquelas árvores? Tem folhas ali. Tem folhas ali.

Foto por Victor Camilo. Para mais histórias como esta, siga The Archipelago.

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