Deus te livre de uma ideia fixa

A fábula da paixão fantasia

Julia Caramés
Jul 28, 2017 · 4 min read

Atire a primeira pedra quem nunca jogou no pai dos burros versão internet o que significa sonhar com qualquer coisa que seja. Se não acreditou na resposta, no mínimo no oferecimento de uma sequência numérica você topou e jogou. Se não jogou, ao menos cogitou.

Em tempos de uma vida atribulada, não muito longe de hoje, duvidaram tanto da minha sanidade que eu quase duvidei também. E foi a fase com os sonhos mais loucos que eu já tive. Psicodelia pura, mermão.

Me lembro até hoje. Era uma manhã de um sábado qualquer e eu sentei a mesa da cozinha pra tomar meu glorioso café da manhã dos campeões, na companhia de uma das mulheres que me criou e tornou possível algum senso pra essa personalidade meio carnival aqui. Eu me recordei de umas imagens e resolvi dividir com ela. Um cachorro, um Doberman preto parecia recém saído de um comercial, entrava no jardim e conversava comigo. Dizia que ia me proteger, achei fofo. Depois eu entrava no meu quarto e alguns vestidos, longos, volumosos e bonitos andavam até a mim. Eles não falavam, mas vinham na minha direção e dançavam ao meu redor. Louco, né?

A espanholinha chapa quente já de queixo caído com a essência de tantos detalhes, só conseguiu proferir as seguintes palavras: “Julia, você está usando drogas? Porque se estiver, é melhor falar logo.” Jurei de pé junto que não e de fato não estava sob efeito algum, aquilo não era viagem de LSD e sim um sinal de que alguma coisa ia acontecer. Joguei na internet e dito e feito: Casamento à vista. Eu levei ao pé da letra e até vela pra Santo Antônio eu ascendi. Agora vai e Deus me ouviu. Haja fé e simpatia pra segurar essa emoção.

Essa anedota tem uns pares de anos já. Mas poderia ter sido ontem ou semana passada. Quem vive no devaneio, se alimenta facilmente de fantasia. Com um pé no misticismo e outro na psicologia, eu demorei a crer que isso tudo fazia parte de um inconsciente existencialista e não eram sinais enviados dos sete céus ou um só que seja.

Depois de tanto deitar e rolar e chorar as pitangas num drama oriundo, minhas crenças e crendices finalmente se transformaram em saco cheio mascarado de eu não acredito em mais nada. Síndrome de princesa da Disney, crente do amor a primeira vista, a louca dos signos que acredita em algum mistério do universo que mandou alguém direto pra cá. Ilusão, chama.

Recentemente eu vivi mais uma e to pra lá de Marrakesh comigo mesma. Porque mesmo sabendo que essa química intergalática é pura fantasia, eu não quero que essa fantasia acabe. Tô errada em dar corda pra coisas que só vivem na minha cabeça? Tô errada em partir pra cima, porque pra mim faz todo sentido? Provavelmente. Mas, você não faz gol, sentado na reserva enquanto assiste seu time jogar, faz?

Tenta a sorte de dizer pra minha vontade que ela não pode existir. No quesito tomar fora eu sou atleta olímpica com medalha de ouro e ainda não aprendi como se tira esse amargo da boca. Especialmente quando eu queria o muito, mas toparia a parcela do que parece pouco. Chance é aquilo que fica implícito nas entrelinhas do “bem que eu gostaria”? Então, prefiro viver o que tá no alcance, do que perder completamente de vista. Quando o coração palpita, o palpite é de que esse desejo não vai passar tão cedo.

A memória é uma faca de dois gumes que não quebra por nada nesse mundo. Nas paradas de sucesso, essa paixão continua tocando e eu não enjoei ainda. Essa é uma daquelas que faz a gente se perder, pra se achar no outro. E se é a bagunça que faz o lugar, esse faz de conta já é a própria organização. Eu tenho medo do que eu não conheço e tenho medo do que eu não entendo. Essas já são mais duas ilusões. Entre elas, a melhor é a que se gosta sem doer.

Eu não sei direito porque eu escolho assim. Porque a fantasia sempre toma mais espaço dos que as leis determinam. Ou o que é que eu to fazendo que tá tão errado. Também não tenho mais como explicar com palavras o que só faz sentido pro coração.

Eu só sei que o que a gente não entende, se resolve com amor.

Julia Caramés

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Se veio aqui procurar alguma coisa, me dá a mão que eu to procurando também!

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