Livres Poderes

Eu o possuíra e ele nunca soube.

Amor Pleno (Terrence Malick, 2012)

O súbito encontro de duas almas. O suspiro interminável que antecede o beijo. O tranco em minha carne. O aprisionamento contente em um só corpo. Um realejo que soou num coração coberto de poeira.

Abandonei-me completamente para pousar em tal corpo.
Capaz de me levar a outra órbita em um só toque. Me trouxe fantasias dilacerantes, noites trépidas no consolo da saudade. Uma genuína paixão, desgarrada em lembranças e um perfume impregnado em minha alma, que me persegue a cada fim de chuva, nas árvores agora refrescadas.

Um refresco, para um calor que não cessa em se espalhar por todo este meu corpo. Agora humilhado e disposto a viver em nome desse desnudo prazer. A pureza do canto erudito que agora pousa seu sonido em meus ouvidos. Clama por um único nome. Pede socorro e ameaça viver num mundo completamente cinza.

Não há mais vergonha.
Embora pudesse, se abstém de qualquer predisposição à timidez. É livre como um pássaro recém-saído do ninho. Agora teima em ficar. E promete, sem alívio, permanecer enquanto houver respiração.

Em meio à todos os sentimentos triviais passados, as obsessões contínuas a falta de coragem das ilusões sinceras, agora o vejo em pé, em plena forma e compostura. Uma bravura indômita que só surge longe de palpites. Ela vem carregada de certezas. O encadeamento perfeito de idéias, que por mais que não pareçam sãs, agora tem consigo o desprezo pela superficialidade.

E ao que me parecia uma explosão, agora está em mar calmo.
Sem hora de partir, menos ainda pra acabar.
Minha possessão tornou-se o livre mistério do amor.

Fevereiro, 2015.