O lado sombrio da força

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Eu resolvi procurar o equilíbrio. Pra falar a verdade, eu preciso, já não é mais uma questão de “Ei, tudo bem, todo mundo tem defeitos, a gente tem mesmo é de aceitar” esses clichês invertidos que me causam mais desespero do que passar fome no meio da chuva! Não, isso é tapar o sol com a peneira, outra figurinha que eu to usando pra dizer na verdade que os nossos defeitos mais temíveis são iguais aquele filme onde tem uma gosma que rasteja por todos os lugares e quer dominar tudo? A Coisa! Esse é o nome. Essa é a sensação.

Interiorizar e não ver só aquilo que você deseja deve — ou definitivamente — é a coisa mais difícil no quesito se conhecer. Porque ou você descobre um tique novo, ou percebe coisas que você achava que já tinham se transformado/ amadurecido e ido embora pelo ralo na hora da descarga do adeus, não morreram. Estão mais vivas do que nunca.

Eu sou egoísta. Egoísta não só no nível de eu não divido nada do que é meu. Porque é só meu. Ou então, só faço o que eu quero e nesse mundo além de mim só tem lugar pro meu espelho. Narcisista, não? Não sou filha única. Ao contrário, fui criada com muita gente e vivi boa parte da minha vida com um número consideravelmente alto de amigos. Apesar de não gostar muito, aprendi desde cedo a compartilhar.

O meu egocentrismo atinge níveis mais devastos e profundos. Vive mascarado de muitas outras sensações e pode passar anos adormecido. Mas, quando desperta, vem como furacão e me leva direto para o buraco negro e é capaz de destruir a relação mais sólida que eu tiver.

Eu não conviveria com ele nem em troca de prêmio. E não levo comigo a menor pretensão de dar de cara com ele na rua. Inescrupuloso, insensível, unânime e voraz. Capaz de me tornar submissa de seus desígnios e seus mais secretos enigmas.

E é nessa parte que eu falho. Falho por não conseguir manter ou levar a frente nenhum tipo de vínculo genuíno. Superficial sim. Profundo não. Peco por não conseguir amar puramente ninguém além de mim mesma. Se eu não ganho nada com isso pra quê perderia meu tempo? E também é assim que eu levo sofrimento a muitos enquanto eu me transformo na mais fria incapaz.

Inepta de doar e amar verdadeiramente, vestida por esse manto gelado, passo a manter as barreiras ao meu redor. Não sei dizer ao certo se em meio a turbulências eu criei um silenciador. Um botão de mute à acionar sempre que algo fugir do meu controle. Ou, por acreditar que essa vida é mesmo volátil e não é sadio tentar perpetuar as coisas. Elas são fugazes e duram um piscar de olhos.

O que me dói quando eu consigo tirar esse véu é que ele é uma engrenagem que destrói os outros além de mim. E aquele que tentar passar por cima desse emaranhado de confusão e isolamento, encontrará um caminho de espinhos irreversível.

Porque eu machuco, eu falto e me afasto. Ultrapassada a minha fronteira, eu sou só a solidão. Aquela que não precisa de ninguém, e que fará a quem me ama perceber que não precisa de mim também.

O lado sombrio dói. E dói mais ainda deixar de admitir.

Ainda que se tenha a premissa de jogar tudo pro bolo do inconsciente, uma hora essa bomba explode. Se tem uma coisa que eu aprendi direitinho é que se você não lida com os seus demônios e esquece eles em uma gaveta qualquer, eles voltam, voltam piores e acabam por te engolir.

Regurgitemos essas façanhas. Botemos pra fora aquilo que só faz mal.

Benoit Courti
Yin Yang é um princípio da filosofia chinesa, onde yin e yang são duas energias opostas. Yin significa escuridão sendo representado pelo lado pintado de preto, e yang é a claridade.
A luz, que é uma energia luminosa e apresenta-se de maneira muito intensa, é o yang, e a luz muito fraca, é o yin. Segundo os chineses, o mundo é composto por forças opostas e achar o equilíbrio entre elas é essencial.

Eu pestanejei pra aceitar esse desdobramento. É diverso do clichê de que todos estamos sujeitos a qualidades e defeitos e fim. Aceitar que sim, todos nós temos inconsistências emocionais e que hora ou outra elas vão se manifestar é também se preparar pra pôr a mão na massa.

Eu parto do princípio de admitir os defeitos, justamente pra aprender a lidar com eles e não magoar mais ninguém. Se longe dele eu sou capaz de amar, com ele eu serei capaz também. Fica miudinho aí, me entendeu?

Não to dizendo que é fácil silenciar algo que faz parte de você. Mas acho que é o momento de enxergar os sentimentos legítimos. Se por ventura a luz mais forte for o amor que temos por quem nos quer bem, relações não mais serão destruídas, e sim, tomarão uma nova cor, mais vibrante e mais forte.

Salvemos o amor, em nome de cessar a dor.