Pressa inimiga de quem?

O relógio segue tinindo!

Esses dias eu ouvi umas três vezes pelo menos o quanto eu sou boa da cabeça e o quanto a minha ansiedade estraga tudo. Não há inverdades nessa crítica, basta cinco minutos de papo furado comigo pra perceber que tudo vira nada numa fração de segundos e vice versa.

Em detrimento da psicodelia mental na qual meu cérebro se acomoda há boas porções de tempo, eis a grande revelação sobre mim: eu não tenho paciência. Pra nada.

Vicky Cristina Barcelona — Woody Allen (2008)

Quando eu era criança o mito do papai noel durou bem pouco. Eu nem cogitava esperar até o dia 24 e sempre acabava descobrindo onde minha mãe escondia o presente. Isso significa que eu já queria o presente mesmo antes do natal? Não. Eu só precisava saber que ele tava ali e era meu. Deu pra entender esse mecanismo? Segurança sim. Entrar num abismo pro buraco negro, jamais.

Por isso venho em nome daqueles que vivem nesse mesmo mundo louco que eu: não culpem o ansioso. Não culpem esse pobre mortal por não saber pisar em terras desconhecidas mesmo que viva sonhando com elas. Ou por sonhar tanto que precisa desbravar territórios perigosíssimos apenas pra provar a si mesmo que às vezes não é sonho, é verdade.

Porque o apressado sonha. Projeta. Imagina demais. Vive sempre na corda bamba entre a pressa e a coragem. Monta roteiros completos e ai de quem desafiar esse script. A inexatidão das cenas traduz a própria ruína para o seu diretor.

Eu mesma me culpo incessavelmente por forçar situações que, na maior parte das vezes só moram na minha cabeça. Dariam bons filmes talvez, mas na vida real geralmente estão fadadas ao fracasso. E sempre que lembro tenho vontade de me jogar com a cara no chão só pra ver se adquiro uma concussão cerebral e seguro um pouco essa emoção.

Annie Hall — Woody Allen (1977)

Então por favor, não culpe o afervorado por viver sem fôlego mesmo quando respira. Por ter tanta fé no agora que nem se preocupa com o depois. Por sair desenfreado por aí e por sofrer tantas vezes por coisas que nem ele mesmo sabe o que é. Porque ele sofre. Se sente patético e dói pra valer.

Na arte de se sentir o pior dos idiotas eu sou rainha. Domino como quem domina um conhecimento vasto carregado de anos e anos de estudo. E quando percebo que botei a carroça, o carro, o avião e até a espaçonave na frente dos bois tenho vontade de me jogar mais uma vez com a cara no chão pra ver se paraliso e desacelero de uma vez.

Se eu to tentando encontrar uma fonte qualquer de equilíbrio? Sempre. E nunca. O problema é que eu meio que tenho orgulho da minha urgência. De vez em quando ela topa com umas alegrias.

Até posso achar a serenidade, mas da coragem eu não abro mão. Essa quero manter aqui vivinha da silva, enquanto esse coração bater. Tudo não dá pra ser. Mas se ocasionalmente rolar alguma coisa, tô dentro.

Onde preferem esconder as emoções, prefiro parecer idiota.

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