Review recheado de spoilers, etc.

“A diferença entre a verdade e a ficção é que a ficção faz mais sentido.”

Adoro essa citação do Mark Twain (mas como a achei na internet, poderia ser muito bem da Clarice Lispector ou do Arnaldo Jabor). Gosto mais ainda da tradução que diz que a ficção precisa fazer sentido – já que a realidade muitas vezes opera no mais absoluto caos.

No mundo das séries, um ótimo exemplo disso é American Crime Story*. A gente só perdoa as diversas reviravoltas rocambolescas do roteiro porque, bem, os roteiros são basicamente transcrições de acontecimentos televisionados em rede nacional. E mesmo assim, eu sempre me incomodo ao lembrar que aquele júri decidiu tão rápido se tratar de dúvida razoável. Mas, novamente, foi daquele jeito que aconteceu. Um roteiro 100% ficcional jamais se safaria disso.

*lembrando que a história do O.J. Simpson é tão maravilhosa, que eles deram um OSCAR pra uma MINISSÈRIE DOCUMENTAL DE OITO HORAS sobre a história dele. Mas pra fazer ficção não é a melhor das fontes.

Na ficção, nós esperamos coerência. Que os personagens tenham motivações críveis. Que essas motivações sejam orgânicas com a personalidade/situação deles. Que quando a gente olhe para as conseqüências ou resultados de um arco, que aquilo encontre respaldo no que foi apresentado anteriormente. Que as coisas aconteçam não apenas porque o roteiro necessita daquilo. E claro, a gente espera não ser enrolado.

Infelizmente 13 Reasons Why falha em todos esses quesitos.

Claro, um pouco disso é minha culpa. Depois de 12 anos estudando e escrevendo sobre seriados, eu já fiquei craque em ver as engrenagens da coisa toda, principalmente quando elas não estão muito bem escondidas. E entre o modelo de distribuição da Netflix, que despeja todos os episódios de uma vez – não dando chance pro pessoal concatenar que o episódio oito talvez não precisasse ser tão parado – e os óbvios pontos fortes da coisa (a temática, a Katherine Langford que é um achado) – o pessoal fica cantando loas pra algo que eu não sei se merecia tanta atenção.

Começando pela garota que se mata: Hannah não parece ser o tipo de pessoa que se mataria. Talvez a interpretação que Langford entrega esteja um pouco fora da proposta, mas o roteiro mesmo parece confirmar isso a todo o momento: ela tem a personalidade forte a ponto de entrar no vestiário masculino (em plena adolescência!) para falar com alguém que a magoou e o mandar tomar naquele lugar. Ela é sassy, em níveis similares a Veronica Mars. Um argumento pode ser feito. que aconteceu tanta coisa em tão pouco tempo que ela teve o “espírito esmagado”. Mas assim, muita coisa acontece com adolescentes (ensino médio = inferno, já dizia Pai Joss) e ela parece ter mais ferramentas que a média para lidar com tudo isso (um candidato muito mais apto para o suicídio seria Clay, todo travadão, acusado de ser gay sem nem ser). Ela tinha pais que se importavam! Ela tinha pelo menos um amigo legal que era a fim dela! – e mesmo que o carinha sensível não tivesse coragem pra chegar junto, ela demonstrou ter inteligência emocional e atitude o suficiente pra chegar nele se fosse o caso.

Claro, o que “esmagou a alma” dela de fato foi o estupro. A cena em si é construída de forma impecável – para todos os fins e efeitos ela morreu ali mesmo (já falei que a Langford é um achado?). Mas tudo que rodeia o estupro é estranho. Porque raios ela iria parar numa festa na casa de um cara dois dias depois dela ter testemunhado o dito cujo fazendo o mesmo com uma amiga dela? Veja bem, não estou culpando a vítima , estou culpando os roteiristas mesmo. E o próprio tema do estupro se torna redundante. Certamente deve ser traumatizante presenciar a sua amiga sofrer um abuso, mas isso não perderia importância quando logo depois acontece o mesmo com você?

Aliás, existe muita redundância para uma série tão curta. Pra começar, poderiam ser uns 8 episódios (o Sepinwall sugeriu as mesmas adaptações que eu faria – Jess e Alex no mesmo episódio, o mesmo para Tyler e Courtney, Marcus e Courtney, e talvez dois episódios para a primeira festa ao invés de três – não que eu tenha copiado o cara ou vice versa, mas é uma divisão tão orgânica da coisa que deveria ser ensinada até no curso de showrunner por correspondência – mas essa aula o Brian Yorkey deve ter matado). E a coitada da Sheri não precisava estar ali né? Ainda teríamos um episódio focado em FOFOCA pouco antes de um sobre estupro, mas a coisa ficaria menos doída de se ver. Mas entendo que treze ser justamente o número da demanda padrão de episódios que a Netflix encomenda foi tentador demais.

Falando em episódios individuais, aquele focado no Clay merece ganhar o Troféu Óleo de Peroba do ano. Como assim “a sua perspectiva vai mudar depois que você ouvir a sua fita”, e “você também matou ela!”. Vão se catar! Ele foi um cara legal que fez exatamente o que ela pediu! Poucas vezes me senti tão enganado vendo uma série. Aliás, vendo a cena pivotal do episódio 11, me lembrei desse bit genial do Louis CK fez sobre rape dating:

https://youtu.be/NXpFtwYIKew

Claro que a situação não era bem a mesma. Mas quando uma garota diz PARE, você para. Depois você faz uma DR sobre, se ela estiver a fim, etc.

Mas o comportamento descrito no final do vídeo serve como uma luva como pro Bryce, né. Aliás, nem tanto, já que para um sociopata como ele, era óbvio que nenhuma mulher perderia a chance de transar com ele. Aliás, analisando o cara isoladamente ele até é bem construído, não soa ameaçador quando está em grupo, não é excessivamente violento com os outros rapazes, etc. Vendo de longe, você entenderia porque ele é popular. Mas porque as NOVE PESSOAS que escutaram as fitas antes do Clay ficam passando pano pra ele? Tudo bem que ele é rico, mas nos primeiros episódios você suspeita que ele tem alguma carta na manga, alguma chantagem. Tudo balela. Nem com armas ele gosta de lidar (a série pode ganhar também o troféu das TVtropes óbvias, tem TRÊS Armas de Chekhov literais!). O pessoal protege ele simplesmente porque sim. Ou melhor, Porque o Clay deveria desmascarar ele apenas no último episódio no caso.

Algumas pessoas, como o Pablo Villaça, ainda criticam o fato do programa supostamente romantizar o suicídio como a solução dos seus problemas, e/ou como vingança. Não vou entrar nesse mérito porque não curto a tendência dele de super-interpretar algumas obras (já fiz parte de uma Message Board cuja principal diversão era zoar os tiques dele), mas acompanho o cara a vários anos e sei que ele tem propriedade pra falar de assuntos relacionados a depressão. Mas digamos que mesmo que a série esteja romantizando a coisa, o está fazendo de modo equivocado.

A temporada termina com alguns ganchos forçaaaaaaaados pra uma suposta (provável?) segunda temporada. Como eu disse no Twitter, Buffy – A Caça Vampiros já fazia melhor a mais de 15 anos atrás .

Inclusive, aproveitem a deixa e assistam Buffy. Vai estar na Netflix até o final de junho. Lá você vai poder ver uma tapeçaria de angústia adolescente belissimamente construída. Recomendado principalmente pra quem esteja no público alvo. Se 13 Reasons Why abalou o seu mundo, Buffy vai ser um torpedo.

Não é toa que sou Ministro da Igreja do Nosso Senhor Joss Whedon.