Dia 41 ou o dia em que defini minha data de partida

Agora é oficial: minha última semana em Neot Semadar. Despedir-me-ei (ui, atenção para a mesóclise passando na sua tela) daqui no domingo que vem, terei carona no dia 26 para Tel Aviv, de carro, porta a porta, com uma mala grande, é algo imperdível. A mesma carona que peguei na vinda, pegarei na volta.

Apesar de continuar com muitas reflexões aqui, tenho tido mais dificuldade em escrever, direto sinto que não tenho algo para contar, tenho que cavar um pouco mais. Não tenho algum acontecimento externo que não preciso nem pensar, que só tenho que relatar.

Abri o Café hoje, seríamos três, mas fomos duas porque a terceira acordou doente. A líder do turno estava tensa, tentou achar alguém para se juntar à gente, mas não deu. Acabou que deu tudo super certo e sem correria. Foi muito bom para mim, na verdade, porque acabei ganhando um voto maior de confiança, meio à força. Por eu não falar hebraico, às vezes sinto que sou meio “café-com-leite”. No fim das contas, foi um dos dias em que fiz as coisas de forma mais tranquila e mais rápida. Foi tão visível como deu certo que a minha companheira de turno, que estava tensa, comentou como foi tudo bem e ainda deixamos tudo nos trinques antes do café.

Foi um dia tranquilo, bom, em paz, sem a montanha-russa dos altos e baixos emocionais e sem montanha-russa no trabalho. Tudo tranquilo.

Recebi a visita surpresa da Chen, minha antiga roomate, que veio fazer uma visita e pegar umas coisas no trailer dela, que está aqui no estacionamento. Não me perguntem porque, eu também não entendi. Adorei a visita dela! Ela comentou como é difícil explicar o que é esse lugar, que tem tentado, mas não dá. É engraçado como esse é um ponto em comum de nós voluntários que passamos por aqui. Eu bem que tento aqui e no instagram, mas realmente faltam palavras.

Continuo pensando dia após dia sobre como fazer uma análise da vida comum e comunista aqui e continuo sem conseguir colocar em palavras. Trabalha-se muito; o conceito de eficiência está sempre presente; não tem dinheiro; tudo é compartilhado igualmente; não há muito poder de escolha, no sentido de que não há espaço para escolhas individuais, como horário de comer, por exemplo; o comunitário está acima de individual; há uma filosofia de se conectar mais consigo, com o mundo e com os outros, porém, as pessoas aqui não são tão abertas como imaginam, algumas não são nada abertas. É um paradoxo ambulante e estático.

Sem contar que tenho pensado em como o comunismo e o capitalismo têm pontos em comum e em como seria bom um outro “ismo”, nem tanto o mito do “self-made man” e nem tanto o comum em primeiro lugar. Só não me pergunte como. Parece que os extremos realmente se encontram.

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