Dia 44 ou o dia em que tropecei na realidade de Israel
Estou com certeza usando meu tanque reserva nesses últimos dias. Hoje, acordei já cansada, com preguiça, não querendo mais esses horários e etc. Abri o Pundak com um amigo daqui, ele me disse, antes de eu falar qualquer coisa, que tinha acordado também com preguiça e não estava no melhor humor. Que time! Hehe.
Ao invés de nos piorarmos, nos ajudamos. Interessante é que ele é daqui, cresceu aqui. Não tem esse meu sentimento em relação aos horários, sentir-se livre, tipo de trabalho, etc. Mas é legal ouvir e ver que ele também tem dias de saco cheio da vida em comunidade. Não porque torço para os outros não se sentirem bem, e sim porque mostra que também não é uma bolha a la ursinhos carinhosos para quem cresceu aqui. Como todo lugar.
Às vezes parece que Neot Semadar tem uma espécie de mística envolvida onde quem mora ou quem fica por muito tempo tem que achar tudo maravilhoso e ser grato sempre. Sinto muito isso com os voluntários de longo prazo. O meu amigo do Pundak, que veio para cá com 4 anos e hoje tem 30, foi o único que me falou com naturalidade sobre pontos críticos. Além de sentir que humanizou mais o local, achei mais real e até mais atraente. Sinto que muitas vezes discurso comumente falado sobre o quão incrível é este lugar vem com uma carga de idealização, que, por sua vez, me remete a algo que não pode ser revisto ou criticado e, principalmente, que se você discorda, talvez você não esteja pronto para ver.
Bom, o dia foi acontecendo, o meu humor foi melhorando rapidamente, começou já quando vi que não estava só no sentimento, o que me deixou à vontade para ficar na minha. Essa sensação me tirou o peso de estar 100% e acabou me reenergizando. Engraçado, né?
Porém, já para o final do turno, caiu de novo. Até o presente momento, não havia me deixado afetar pelo modus operandi do hebraico, de cada hora alguém me pedir algo, de estar passiva, de não entender e estar sempre um passo atrás. Mas, hoje, bateu. Muitas e muitas vezes as pessoas me dizem coisas óbvias ou não consigo passar a mensagem certa. Além de que quando há mais movimento, estou sempre um passo atrás pela língua, na correria, é hebraico. Hoje quando me falaram para fazer X e não Y, sendo algo meio óbvio, engoli uma resposta. Antes, só deixava passar. Termômetro de que estou realmente no meu tanque reserva.
Estava fazendo sanduíches, me pediram para ser garçonete para substituir outra menina. Peguei o bonde andando, ok. Tudo certo, tudo indo bem, até que uma mesa com duas meninas-soladadas estava sentada há muito tempo sem nada, perguntei na cozinha, na correria, ninguém soube dizer que elas tinham pedido no balcão, só haviam sentado para esperar. Perguntei a elas. Quando voltei, me falaram para perguntar na cozinha antes. Sério. É pequeno, mas acontece demais, devido tanto à língua como à organização do local. Não deixava me afetar, mas hoje foi difícil, só me fez voltar à minha contagem regressiva.
Para piorar, fui servir outra mesa, agora de homens-soldados (um pouco mais velhos, no sentido de não serem meninos de 18 anos sem nem pêlo no rosto), tropecei no fuzil de um deles que estava deitado no chão. Congelei até a alma. Nitidamente fiquei afetada. É tão normal para eles que até acharam graça. Só eu fico abalada. Duas armas gigantescas no chão. Não consigo lidar. Demorou para eu voltar. Toda vez que ia à mesa deles, aquilo gritava. Tropecei na realidade de Israel. É uma tranquilidade armada. Uma guerra congelada, talvez.
Minha alteração de humor e meu esgotamento me fizeram definir hoje que irei a Eilat no final de semana. Estava na dúvida se me despedia daqui no shabat, com tempo livre, ou se iria finalmente conhecer Eilat. Minha sensação de “foi suficiente” me mostrou que Eilat é a melhor escolha agora. No mundo ideal, faria os dois. Bem que tentei. Mas as circunstâncias me fizeram escolher. Ganhei uma carona a Tel Aviv e isso me fez sair dois dias antes. A carona também foi uma escolha. Escolhas… a gente abre uma porta e fecha outra.