Dia 46 ou o dia em que me despedi do Kibbutz

Apesar do meu nítido cansaço e esgotamento da vida no Kibbutz, eu demorei a decidir se passaria o final de semana lá ou em Eilat. Só decidi quarta à noite, sendo que vim sexta de manhã para Eilat e trabalhei o dia todo na quinta. Engraçado como essas coisas funcionam, estava contando os dias, mas, ao mesmo tempo, quando chegou perto, demorei a tomar a decisão de não passar o shabbat em Neot Semadar. O shabbat é um bom momento e seria também o momento de me despedir com calma das pessoas.

Bom, quanto ao tópico me despedir com calma das pessoas, apliquei o jeito Neot Semadar de ser, aceitei a não intensidade. Tive todos esses 45 dias para estar com essas pessoas, despedida costuma ser diferente na minha perspectiva, mas, lá, nem tanto. Só um pouco. Então, fui de Eilat. Como já estou escrevendo de Eilat, digo apenas: ótima decisão a minha.

Acordei já de bom humor. Incrível como meu humor mudou. Estou no fuso horário de Neot Semadar, acordo 5h40 mesmo sem precisar. Foi bom que fiz minha mala antes do café da manhã. A Chen, amiga minha e minha antiga roomate, foi passar o final de semana no kibbutz e me ofereceu o carro para eu vir até Eilat. De início, recusei a oferta. Depois, ao olhar o horário dos ônibus e o itinerário do carro, resolvi aceitar. Outra ótima decisão!

O carro da Chen tem personalidade própria. Ele é um carro antigo grafitado com partes da letra de “All you need is love” na lateral e no capô. Além de ser com certeza o carro mais bagunçado que já vi na vida. Fomos verificar se estava tudo ok no carro, colocamos óleo, calibramos os pneus e eu segui viagem.

Que libertador que foi sair pelos portões do kibbutz, de carro e sozinha numa viagem pelo meio das montanhas do deserto. Lindo, lindo! Fiz um pit stop para um breve passeio em Timna antes de chegar em Eilat. Timna é um parque nacional daqui que possui uma paisagem maravilhosa, pinturas rupestres e muitas trilhas. Era uma antiga fábrica de cobre. Quando digo antiga, quero dizer antiiiiga, Antiguidade. Há indícios de que Timna funcionava como mina de cobre na época do Rei Salomão, isso é muito, muito antes de Cristo, 1.000 a.C.

A paisagem é maravilhosa, vale a visita. Só o preço que é esse preço salgado de Israel. 49 NIS para entrar. Porém, a entrada vale para 3 dias. É deserto, o sol bate forte, e é quente. Muito mais quente que Neot Semadar. Passei calor. Estar de carro possibilitou a visita, o parque é grande e anda-se de carro, bicicleta ou a pé para quem gosta de caminhada de verdade. As trilhas são diferentes para cada um. De bicicleta parece bem legal; caminhar o parque todo, achei meio inóspito, iria de carro até onde o carro chega (são várias rotas) e caminharia o resto. Aliás, esse era meu plano inicial, mas ao chegar lá, vi que estava totalmente despreparada. Voltarei com a roupa e o sapato adequado, assim como como um bom lanche. Tem restaurante lá, mas se a intenção foi dar uma andada, melhor se prevenir. Mesmo se tivesse com toda a parafernalha da caminhada, hoje não teria feito, o dia de hoje me mostrou que meu corpo está mesmo precisando de descanso.

Ao sair de Timna, vi um casal gringo (falou a residente) pedindo carona e resolvi dar. Aqui é super comum. Pegar carona é um meio de transporte em Israel. E eu quis testar, me libertar mais e tirar uns receios. Foi bem tranquilo. Viemos até Eilat juntos. Um casal de romenos que vieram a Israel a turismo.

Cheguei ao meu estúdio do airbnb. Gente, recomendo demais esse lugar em Eilat! É ótimo e exatamente o que eu precisava! Estou me sentindo no paraíso. Cama super confortável, tudo limpinho, bem decorado. A anfitriã é um amor, me convidou para comer bolo e tomar café na casa dela (fui, claro) e ainda me levou ao mercado e à uma loja de conveniência para comprar internet para o celular (dica aos navegantes: pré pago não vale a pena nessa Israel e é difícil achar recarga).

Normalmente, já chego chegando em uma cidade nova. Cheguei um pouco antes do pôr do sol. A vista é maravilhosa, é a vista para as montanhas da Jordânia. Estamos em Eilat, em Israel, mas nossa vista é de Aqaba, na Jordânia. As duas cidades são coladas. É engraçado pensar que é outro país. Voltando, meu plano era já chegar e sair para o pôr do sol, mas precisei descansar um pouco nessa cama maravilhosa. Respeitei meu corpo e venci a ansiedade (aeeee). Incrível como estou precisando parar e descansar. Acho que nunca me senti tão cansada e tão querendo ficar sem fazer nada.

Saí um pouco depois das 20h para o calçadão de Eilat. É super turístico, cheio de restaurantes e lojas e a maioria aberto no Shabat, inclusive supermercado, #ficaadica. Um astral muito agradável, já estava de noite, então não tinha vista, mas o clima do calçadão permaneceu. Tem até uns brinquedos estilo parque de diversão. Bem legal.

Eilat é o balneário de Israel. Lota aos finais de semana de gente que mora no norte e vem curtir um calor e uma praia. Já sentia o movimento trabalhando no Pundak, aqui ficou claro. Tem até um cartão para residentes pagarem menos nos restaurantes.

Comi uma pizza com coca-cola, só queria algo meio “junk”. A comida de Neot Semadar é ótima, mas, para mim, o equilíbrio das coisas também está em se permitir comer comidas gordurosas e etc se estiver com vontade e não lhe fizer mal. Hoje senti vontade de comer “porcaria”. Fui de pizza, coca-cola e chocolate.

Estava caindo de sono após a pizza, peguei o carro e estava voltando para a casa (o trajeto dura 5min, literalmente), quando fui parada pela polícia. Meldels, congelei de cima a baixo. Tinha saído sem o passaporte, não gosto muito de andar para todos os lugares com ele, fico um pouco tensa. Pois bem, fui parada pela polícia, estava com minha carteira de motorista, claro, porém, sem passaporte. Tenso. Dois policiais, um suave e grosso para o outro era apelido. O suave me liberou, respondi perguntas sobre o carro, disse que era de uma amiga de Neot Semadar, o policial conhecia o kibbutz e viu que o carro condizia com o kibbutz, hehe. Fui liberada. Ser branca e loira ajudou bastante, não dá para negar.

Cheguei no lindo aconchego do meu lar por duas noites, deitei e até liguei a televisão para ver um filme. Paraíso.

    Júlia Boianovsky Rios

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    My life in Israel. IG: jucaviaja