O dia em que larguei tudo e fui ser feliz. Ou como não foi e nem é nada disso.
O que não falta agora são textos de “como larguei minha carreira muito bem sucedida na multinacional e fui ser feliz numa ecovila na Bahia, faça isso você também!” ou “como larguei o escritório e agora vivo viajando o mundo” e etc. Assim como o “saia da sua zona de conforto”, virou quase um mantra. Eu sendo mais uma dessas histórias, ou, melhor, estando no caminhar de ser mais uma dessas histórias, digo: não é nada disso.
Não tem fórmula certa, e, principalmente, não é nada fácil. Quando digo que não tem uma fórmula quero dizer também que esse não é o caminho da felicidade para todo mundo. Acho que temos que parar de vender isso como uma espécie de sonho geral.
Quero falar aqui sobre o processo dessa escolha. Foco em resultado funciona para tarefas no trabalho, mas não para a vida pessoal. Não raro comparamos o início de um ciclo nosso, com o final do ciclo de alguém. Não há nada mais injusto com nós mesmos. A grama do vizinho é sim sempre mais verde, mas simplesmente porque desconhecemos os processos íntimos de cada um. Vemos a vitrine, a casca, e comparamos com o nosso todo; pior, costumamos comparar com as nossas fraquezas. Costumamos olhar para o que o outro tem e o que nós não temos, principalmente em crise.
Minha vitrine atual parece quase um texto do Hypeness: larguei a vida confortável em Brasília para desbravar o mundo, especificamente, em Tel Aviv, Israel. Resolvi seguir meu coração e me jogar no mundo em uma cidade maravilhosa, vibrante, cosmopolita e com direito a pôr do sol no Mar Mediterrâneo. Com duas semanas, consegui um emprego em uma Startup, exatamente o ecossistema profissional em que almejava. Paraíso.
Antes de vir definitivamente, fiz um test drive de 3 meses por aqui, com direito a experiência em kibbutz, boiar no Mar Morto, rodar de cima a baixo por Israel e curtir baladas em Tel Aviv. Que linda vitrine. Inclusive, vocês podem vê-la, tenho um instagram com fotos lindas desses lugares. Realmente, foi ótimo e tem sido muito bom. Mas há um mundo por trás das fotos, há um mundo atrás das imagens.
O que não aparece nas imagens foi o tanto que caminhei para chegar aqui. O tanto de noites sem dormir, o tamanho da minha inquietação, desencaixe e insatisfação naquele caminho que achava que devia seguir. A angústia virou uma dor física. Eu e a depressão passamos uns bons meses flertando uma com a outra. Foi muito difícil, mas foi aí que percebi que há a depressão-doença e há a depressão-momento-da-vida. Felizmente, para mim foi a segunda. É a vida, ela é feita de altos e baixos, temos inverno e temos verão.
Só consegui me abrir para pensar em outra possibilidade quando a minha situação já estava emocionalmente insustentável. Esse foi o meu início para pensar em traçar outro caminho. Pensar, ainda distante de executar. Mesmo sabendo e sentindo em todas as fibras do meu corpo que eu não queria seguir o caminho que estava seguindo, a escolha não foi fácil. Ainda tentei ser concurseira, quis muito conseguir seguir esse caminho “natural” de Brasília. Mesmo. Quis muito querer a CNTP brasiliense.
Ou seja, não, eu não li um texto motivacional “largue tudo e vai ser feliz” e vi que era isso que me faltava. Ninguém “larga tudo” sem estar altamente insatisfeito. Coloquei entre aspas, pois há muitos tudos na nossa vida. Eu me mudei de cidade, de país e estou tentando um recomeço no mundo profissional. Mas claro que não larguei tudo, um dos meus grandes e mais importantes tudo está hoje no Brasil, que é minha família, meus amigos, minha cultura, minha língua.
Hoje completo um mês em Tel Aviv. Foi um mês intenso e surpreendentemente fluido. Consegui um emprego em uma Startup — ecossistema profissional por mim almejado ao sair de Brasília — com duas semanas. Ontem acabou meu treinamento e fui efetivada. Foi muito rápido. 100% das pessoas aqui ficaram impressionadas com a rapidez. A realidade aqui é muito diferente da brasileira, mas também costuma se levar um tempinho, eu mesma estava esperando um emprego temporário, não achava que iria ingressar tão rápido nesse ambiente.
A sensação de felicidade, realização e alívio que tive no meu primeiro dia de emprego foi única. Não foram duas semanas, foram dois anos. Tive um processo de dois anos e meio entre ter pedido demissão, tentado estudar para concurso, ter percebido que aquilo não era para mim, aceitado, trabalhado internamente, encarado a mudança e, enfim, de fato vir construir um novo caminho, ainda desconhecido, em Tel Aviv.
A ansiedade, o frio na barriga e o medo são companheiros nessa jornada. Ter me inserido rapidamente no ecossistema de Startups ajudou muito, porém, estou começando do começo. Ainda não estou no cargo que almejo. Em termos de qualificação, sou super qualificada para a função que exerço, mas é a taxa de conversão de mudar de carreira. E tudo bem, estou super feliz com essa conquista, me sentindo verdadeiramente realizada, como nunca senti antes. Consegui fazer a transição. Não foi fácil, mas está acontecendo.
Agora vem os outros passos em relação à carreira — menos de transição profissional e mais de capacitação — , e os outros passos da vida aqui. Construir relações, ter uma rede, amigos. Estar longe é ter que saber lidar com a solidão, com estar só e saber que nós somos ótimas companhias para nós mesmos. É difícil e as vezes parece uma loucura quando penso nas tantas pessoas queridas que tenho no Brasil, são tantas que não consigo nem contar. Enquanto aqui, apesar de já ter pessoas queridas, nesse atual momento, sou eu e eu na maior parte do tempo.
Imagino que daqui a um tempo serei de fato uma dessas histórias dignas de Hypeness ou Draft, assim espero. E, por isso, fiz questão de escrever esse texto agora, para que o processo seja lembrado. Assim como fiz questão de tirar uma selfie minha embarcando para Israel: olhos inchados. Nunca foi tão difícil embarcar. Naquele momento senti a minha coragem, já dita por muitos quando anunciei minha decisão de mudança, mas por mim ainda não sentida até a última semana de Brasília.
Colher os frutos desse processo tem um sabor especial de vitória pessoal. Crise é oportunidade. O que fazer para enfrentá-la? Respirar, buscar ajuda (terapia é vida, um grande presente da gente para a gente #ficaadica), sentir e deixar passar. Não tem solução rápida. 2016 foi muito duro e muito essencial. Sem ele, não estaria aqui. A crise me deu a coragem de ir atrás dos meus sonhos. Depois do inverno, a primavera.
