O primeiro retorno a Israel

Apesar da minha cidadania israelense ser consequência da Lei do Retorno, meu retorno a Israel não foi quando eu vim, foi agora, há quase um mês, após minha primeira visita ao Brasil.

Sim, visita ao Brasil. Imagina, eu visitei o meu país, e voltei para o médio-meu-país. Voltei para um lugar que não é minha casa como o Brasil é, como Brasília é. Esse retorno está entre os momentos mais desafiadores e difíceis dessa minha escolha. Embarcar não foi tão difícil como da primeira vez, tenho uma vida já estabelecidada aqui, mas a rotina… Agora tenho uma rotina e a rotina pega. A falta da minha terra, das minhas pessoas e da minha língua está sempre ali em algum lugar.

Não parei nesse primeiro mês: trabalho, amigos, muitos amigos, academia, verão, praia, festas, atrações pela cidade. Tel Aviv não pára, no verão, então, impossível acompanhar. Eu até bem que tento. Isso ajuda e muito, ocupa a o dia, a noite, a cabeça, dá suporte emocional, mas aquela dor da distância persiste.

Claro que não é mais algo ostensivo, que me impeça de estar feliz aqui, de curtir o momento e, mais importante, de continuar por agora. É sutil. Porém, creio que talvez os grandes desafios estejam nas sutilezas. É acordar numa manhã de sábado e querer fazer nada com a família. É querer assistir Netflix com a minha irmã. É querer ir a um almoço nas minhas avós. É o samba de sextas. É o nada especial do dia-a-dia, que é, na verdade, o tão especial.

Grandes eventos e celebrações são sempre momentos que nos fazem sentir a distância, afinal, morando em um local com mais de 24 horas em trânisto até a minha cidade natal, ir a uma festa especial no final de semana é inviável. Eles são o símbolo dessa escolha, mas são pontuais. A falta real, a que creio que testa a nossa resiliência e vontade de continuar, é a do cotidiano.

Dizem que a primeira visita é a mais difícil. Acredito. Nós nos acostumamos e nos adaptamos a tantas coisas. Mas sei também que mesmo que esse processo fique cada vez menos doído, a falta sempre estará presente. A falta vem com esse pacote. E, que bom, porque ruim mesmo seria estar aqui sem sentir falta de lá.

Mais uma situação que requer respirar fundo e seguir, ainda não é a hora de voltar para casa.

    Júlia Boianovsky Rios

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    My life in Israel. IG: jucaviaja