Bruxa Iniciante

Quando descobri que ele era casado, o ódio que eu senti subiu como fogo da sola do pé até minha testa. Eu me sentei no sofá, coloquei a cabeça entre os joelhos e só percebi que estava chorando quando senti meu nariz escorrendo.

Que nojo de mim e que nojo dele.

Minhas pernas tremiam. Eu precisei levantar a cabeça para conseguir respirar. E depois de respirar fundo, depois de sentir que estava puxando todo o ar do mundo para dentro dos meus pulmões, eu disse baixinho:

“Eu quero que ele morra.”

Assim que as palavras saíram da minha boca, eu sorri e me corrigi.

“Não quero que ele morra de verdade.” — eu disse para o ar que me ouvia.

Meses depois, eu fiquei sabendo que ele quase morreu por causa de uma bactéria bizarra. Ainda estava com problemas de saúde, mas vivo.

E eu queria não pensar mais nele porque eu sei que ele não pensa em mim. Mas toda noite, ao me deitar, eu fecho os olhos e digo:

“Não quis dizer o que eu disse. Não quero que ele morra, não quero.”

Foi o primeiro feitiço que lancei, ainda que sem querer. Agora venho testando outros, que eu uso para pedir que algo me traga de volta o “eu” que existia antes dele.

Por enquanto, sem sucesso.


Esse texto faz parte do meu plano de “30 dias, 30 textos” que eu expliquei aqui.

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