Aleluia
Costumava ir até a cidade.
Os postes, a calçada, o vendedor de salgadinhos, o moço sem pernas pedindo dinheiro, a velha fumando enquanto carrega muitas sacolas, um número irritante de sacolas, a advogada de pernas demais e sapatos com salto, o cachorro querendo atravessar a rua de uma vez por todas e para sempre interrompido num infinito de carros e fadado a ficar ali, no lado errado, cheirando irritantemente as sacolas, pensando em qual delas mora comida e tentando atravessar o mar antes das ondas baterem, tudo isso ao mesmo tempo; o que ninguém sabe é que todos, sem exceção, são só obstáculos e a cidade pertence a mim e só a mim, assim que meus pés dão o primeiro passo fora do trem a regra é essa.
O vendedor me passa uma cantada, o deficiente faz xixi na tubulação do metrô e olha dentro dos olhos de qualquer um que olhasse para dentro dos olhos dele, até os olhos da mulher que é só pernas, e ela apressa o passo, tec tec tec, as sacolas rasgam com uma mordida raivosa e tecidos escuros escoam do plástico e o cigarro na boca impede uma solução mais rápida para o problema de vazamento, o cachorro finalmente nada pelo oceano ao ser estimulado por um chute, sem ser pego na correnteza, mas bem por pouco.
Não vou mais para a cidade. Demora um tempo para se acostumar, mas agora o cachorro, a velha, a advogada, o moço sem pernas e o vendedor de salgadinhos não existem mais.