Dark Souls 3, meu gatinho doente e abandono

A gente tem um gatinho inteiro branco, chamado Barry. Ele age feito um cachorro; pede carinho, gosta de brincar, busca ratos de feltro e traz nos pés das visitas, quer que joguem de novo. Ele é muito feliz assim.

Hoje não me deu vontade nem de olhar para a TV. Vi um gigante da altura do meu prédio gerar um vento estranho no quarto e me fazer segurar o folego, mas foi só isso, só o bastante para não respirar por dois segundos e falar “Uau, legal”. Fiquei quieta de novo, me aninhei e fechei os olhos com muita forca, muita mesmo, prometendo nunca mais abrir de novo, nunca mais ,até dormir. Não deu certo, o sono é uma coisa meio esquisita que você nunca lembra como começa, mas sua esperança desesperada diz que forcar funciona, sim, só que não.

A gente criou um personagem inteiro branco, igual o Barry. Concluímos que seria idiota demais no contraste do jogo e é bem menos impactante ver gigantes que fazem você segurar o ar quando um boneco branco — cabelo também branco, olhos verdes e focinho afunilado— interage com o ambiente.

Tentei dormir de novo. O Barry tem um problema de respiração, talvez seja por isso a manha e os carinhos. Ele ficou doente por muito tempo e agora não tem nenhuma mucosa no nariz. O chão da casa fica sujo de verde espirro, só que a síndrome de underdog faz com que todo mundo goste dele ainda mais.

Tinha um monte de monstro uivando de dor, bravíssimos com alguma coisa, querendo matar tudo e todos; tinham esqueletos ajoelhados e olhando para estátuas; tinha uma alvorada com um monte de castelos (e provavelmente devia dar para chegar até cada um deles!) ao fundo, bem impressionante.

O Barry foi abandonado pelo dono antigo por ter esse problema de catota e de ser manhoso demais. A gente acha engraçado e gosta dos mimos. Parei de falar com vários amigos, não doeu tanto, mas como alguém deixa um bichinho para trás? No geral, inconscientemente, quando repasso o passado bem rápido na minha cabeça para me forcar a dormir, tento ver o filme do que me deixa triste em fast-forward, para não incomodar tanto, afinal, meu cérebro precisa precisa precisa pensar nessas coisas de qualquer maneira, mesmo sabendo que não deve, então melhor que seja acelerado, não me culpo por quem foi embora. É culpa de todos voces, menos minha.

O jogo continuou bem sério e agora um monstro samurai não morria de jeito nenhum. Percebi que o cenário era adulto e sombrio, mas colorido, a parte das trevas era só pelos bichos gritando em uma agonia horrorosa, sei lá o que que aconteceu de tão triste, a parte divertida foi descobrir um erro na animação do bonequinho enquanto ele balançava a espada e desviava do zumbi japonês gótico: a bainha não gruda no cinto do protagonista, alguns pixels fazem ela balançar sem apoio, um erro esquisito, no centro da tela, bem na sua cara. Tem uns trocentos milhões de castelos e tipos de monstros, mas talvez o cavaleiro Barry até tivesse se virado bem com toda essa tristeza.

Sei que a culpa é toda minha.